Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Erhardt Graeff: “Os jovens têm de atuar no governo também”

Os jovens nascidos a partir dos anos 1990 dificilmente se lembram de um mundo sem internet. Fazem parte de uma geração integralmente conectada. É pelas redes sociais que se relacionam com os amigos e com o mundo. Sendo assim, é natural que digitalizem também seu engajamento político e social e articulem virtualmente suas opiniões a respeito das decisões políticas que os afetam. “É provável que uma quantidade maior de pessoas esteja se engajando com política agora, graças ao acesso diário a espaços de expressão cívica e política encontrados nas redes sociais”, diz , pesquisador do laboratório de mídia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

Não há contradição entre os jovens estarem engajados em debates profundamente políticos – relacionados a educação, segurança, violência sexual e racismo, entre outros – e, ao mesmo tempo, decepcionados com a política tradicional. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), compilados pelo jornal “O Globo”, o número de jovens entre 16 e 24 anos filiados a partidos políticos caiu 56% nos últimos sete anos. Em 2009, eram mais de 300 mil filiados. Hoje, são cerca de 132 mil. Em levantamento feito pelo Data Folha em 2015, 69% dos jovens da mesma faixa etária afirmaram não ter preferência por nenhum partido. E, entre os adolescentes com 16 e 17 anos, para os quais o voto é facultativo, a presença nas urnas caiu 31% de 2010 para 2014 – entre uma eleição e outra, mais de 800 mil jovens optaram por não votar. Nos Estados Unidos a situação é semelhante.

Pesquisa feita pelo The Center for Generational Kinetics, grupo especializado em estudos de gerações, mostra que menos da metade (47%) dos jovens acha importante votar e somente 26% confiam nos representantes políticos eleitos. “Eles têm baixa lealdade a partidos políticos e estão mais interessados no progresso de questões individuais, como os direitos dos homossexuais e a desigualdade social”, diz Graeff.

Época – Como os jovens nascidos a partir dos anos 1990, chamados por alguns de Geração Z, engajam-se social e politicamente?
Erhardt Graeff –
A atual geração de jovens se engaja socialmente tanto offline como online. Alguns críticos temem que a participação maciça nas petições online, o “ativismo hashtag” e o compartilhamento de memes políticos significa que os jovens estão se abstendo das eleições, de marchas de protesto e do compartilhamento de notícias. Porém, não temos nenhuma pesquisa que sugira que esse declínio esteja realmente acontecendo. E certas ações, como marchas de protesto, historicamente atraem somente uma pequena porcentagem dos cidadãos. Na verdade, é mais provável que uma quantidade maior de pessoas esteja se engajando com política agora, graças ao acesso diário a espaços de expressão cívica e política encontrados nas redes sociais.

Época – As atividades da Geração Z acontecem somente online ou ela também age na “vida real”?
Graeff –
As redes sociais oferecem condições mais equitativas para os jovens, que são muitas vezes marginalizados em espaços tradicionais – como em prefeituras municipais – por sua aparente ingenuidade sobre política. Atividades online podem complementar atividades offline. O “ativismo hashtag” tem sido particularmente bem-sucedido como uma ferramenta para amplificar as mensagens de marchas de protesto e ocupações em todo o mundo e ajudado a reunir públicos diversos em torno de uma causa. Por exemplo, na Espanha, o movimento 15M deu origem ao partido político Podemos.

Época – Quais são as principais características da Geração Z quando o assunto é política?
Graeff –
Pesquisas sobre o engajamento da juventude contemporânea sugerem que os jovens têm baixa lealdade a partidos políticos e estão mais interessados no progresso de questões individuais, como os direitos dos homossexuais e a desigualdade social. Essas tendências também estão cruzando gerações agora. A desconfiança nos parlamentos é um fenômeno global. Os jovens simplesmente olham para o futuro e são mais rápidos em livrar-se de tradições tribais e de partidos políticos.

Época – Quais as consequências dessa atitude?
Graeff –
Sob essas condições, o nacionalismo populista está se espalhando globalmente, preenchendo uma lacuna no orgulho nacional em que a política tradicional falhou. Muitos jovens são atraídos para a promessa de grandes mudanças e restabelecimento do orgulho nacional.

Época – Como deverá ser o mundo que esses jovens assumirão?
Graeff –
O mundo não deve ignorar a juventude política ou civicamente. Os jovens são a maioria em muitos países em desenvolvimento. A Primavera Árabe mostra o que acontece quando os jovens são ignorados social, política e economicamente e quando sua capacidade de articulação online e offline é desconsiderada. Mas a juventude não pode ser parte apenas da revolução, ela precisa ser parte da governança também.

Fonte: “Época”, 8 de junho de 2016.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.