“O Brasil precisa de mais capitalismo”, diz Paulo Guedes

Paulo Guedes

Entrevista de Paulo Guedes, articulista do Instituto Millenium,  à revista “Veja”  em 18/01/2006  (edição 1939)

“Liberal sem medo”

O economista afirma que o Brasil precisa de mais capitalismo e que a social-democracia não tem condições de levar o país à frente

O economista Paulo Guedes, de 55 anos, tem sido um crítico feroz da condução da economia em sucessivos governos. Suas previsões sombrias renderam-lhe por um tempo o apelido de Beato Salu, o pregador catastrofista da novela Roque Santeiro, de Dias Gomes, que estava no ar em fevereiro de 1986, quando foi lançado o Plano Cruzado. Vinte anos depois e com suas previsões mais que confirmadas, Guedes continua crítico, mas não se pode chamá-lo de catastrofista. O economista enxerga um horizonte de oportunidades para o Brasil, desde que o país faça as reformas estruturais tão discutidas e pouco encaminhadas. Para que isso seja possível, defende a entrada em campo da liberal-democracia, após vinte anos de governos que classifica como social-democratas de matizes variados. Guedes, Ph.D. em economia pela Universidade de Chicago, é sócio da administradora de recursos Fiducia e está entre os fundadores do Instituto Millenium, um fórum recém-criado para difundir o ideário e as propostas liberais para o Brasil. Em seu escritório, no centro do Rio de Janeiro, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – O senhor se auto-intitula um dos últimos economistas liberais do Brasil. O que é ser um economista liberal?

Paulo Guedes – É acreditar que a força motora da civilização é a Grande Sociedade Aberta, que vem sendo construída há pelo menos 2.500 anos. Começou na Grécia, em Atenas. Isso inclui a percepção de que os mercados são a maior máquina de inclusão social já descoberta. O liberal-democrata é o sujeito que compreendeu o processo de formação dessa grande sociedade e sabe que a democracia e os mercados estão nas raízes da civilização ocidental.

Veja – No Brasil, já há algum tempo, atribui-se boa parte dos problemas nacionais a políticas liberais ou neoliberais. Por quê?

Guedes – Na melhor das hipóteses, devido a uma má leitura da realidade. É irracional dizer que um país que gasta 40% do PIB no setor público tem algo de neoliberal. Porque o Brasil já tem quarenta anos de dirigismo: vinte com os militares e vinte com a social-democracia. Então, quando alguma coisa não vai bem, dizem que a culpa é do liberalismo. É brincadeira. Tivemos a social-democracia populista, com José Sarney, o PMDB e o “tudo pelo social”. A sofisticada, ou punhos de renda, com Fernando Henrique. E a popular agora, com Lula. A matriz ideológica brasileira não tem sequer um genezinho liberal. Na última eleição presidencial foi a mesma coisa. Tinha o social-democrata José Serra, o social-reformista Ciro Gomes, o social-sindicalista Lula, o social-populista Anthony Garotinho.

Veja – Mas houve privatizações, abertura do mercado, Lei de Responsabilidade Fiscal, superávit primário…

Guedes – É claro que houve progressos. Armínio Fraga (ex-presidente do Banco Central) fez o câmbio flexível, Sérgio Werlang (ex-diretor do BC) criou o sistema de metas inflacionárias e Palocci garantiu a estabilidade da moeda. Mas nas privatizações, por exemplo, perdeu-se uma chance histórica. Quando começou o governo Fernando Henrique, a União tinha 60 bilhões de dólares em participações nas empresas estatais. E a dívida pública federal também era de 60 bilhões de dólares. Tinha de ter feito um processo radical e acelerado, e matado a dívida. Ou seja, a social-democracia até acerta, mas é um modelo que funciona num ritmo incompatível com as necessidades impostas pelo mundo atual. Levou vinte anos para derrubar a inflação, vinte anos para soltar o câmbio. Isso é intolerável.

 Veja – É por isso que o Brasil não cresce?

Guedes – Há quase três décadas o Brasil parou de crescer. A estagnação tem raízes no intervencionismo e no dirigismo lançados pelo governo militar, irrigadas por uma democracia emergente que se perdeu em combates epidérmicos. O centro do problema é o tamanho do Estado e sua voracidade. Porque, como o Estado não pára de gastar, o juro acaba ficando muito alto. Isso é incontornável. Não adianta xingar o BC. Isso só se quebra com controle dos gastos públicos. Para o país ter lugar no mundo globalizado, é preciso levar à frente as reformas, e a social-democracia é muito lenta. O mundo não vai nos dar esse tempo. Da mesma forma que a redemocratização devastou as hostes políticas que apoiaram os militares, a social-democracia será devastada agora, porque não há como fazer face à globalização sem reformas profundas e ela não tem condições de promovê-las. A mãe de toda a tragédia é o nível de gastos do governo. Todo o resto é epifenômeno. Inclusive a corrupção.

 Veja – Por quê?

Guedes – É Karl Marx quem diz o seguinte no clássico As Lutas de Classe na França: “O incremento da dívida do Estado interessava diretamente aos que governavam e legislavam através das Câmaras. O déficit do Estado era precisamente o verdadeiro objeto de suas especulações e a fonte principal de seu enriquecimento. As enormes somas que passavam pelas mãos do Estado davam, além disso, oportunidade para fraudulentos contratos de fornecimento, corrupção, subornos, malversações e ladroeiras de todo gênero”. É Marx quem diz que a corrupção sistêmica é filha da escalada de gastos estatais. E essa é uma lição a ser aprendida por nossos social-democratas. Não podemos levar vinte anos para fazer as reformas.

 Veja – Por que as reformas não andam?

Guedes – Quem estudou um pouquinho de física sabe que as estrelas que a gente vê à noite não existem mais. São luzes emitidas há bilhões de anos. Mas quando se olha o firmamento brasileiro vê-se a luz de um professor auto-exilado porque lutou meritoriamente contra o regime político. E a de um sindicalista corajoso, brasileirinho, que enfrentou os cães na porta da fábrica. Eles merecem brilhar no nosso firmamento. Mas são ecos do passado. Essa noite não existe mais, tem coisa nova acontecendo. Não há dúvida de que quem está promovendo a reconstrução econômica em todo o mundo é a liberal-democracia. Desde o pós-guerra. Quem fez a reconstrução econômica da Inglaterra, que tinha se tornado um a nação irrelevante? Lamentavelmente, para o desprazer de muita gente, foi uma senhora chamada Margaret Thatcher (primeira-ministra britânica que liderou a reforma do Estado em seu país na década de 80).

 Veja – O senhor fala em social-democracia e liberal-democracia. Por que não esquerda e direita, simplesmente?

Guedes – Esquerda e direita são rótulos que ainda subsistem em países atrasados, entre os quais eu incluo o Brasil. Nos desenvolvidos, as duas forças hegemônicas são a social-democracia e a liberal-democracia. O socialismo é uma utopia que se tornou irresistível para os intelectuais, apesar de ser um equívoco intelectual completo. Quem são os economistas socialistas que deixaram uma herança para a sociedade? Sobrou só o próprio Marx, como um grande filósofo. O socialismo, para sua tragédia, virou o ópio dos intelectuais. Virou uma religião. E por quê? Porque cometeu o terrível equívoco de não compreender o que estava acontecendo em matéria econômica. Baseado no desejo de igualdade, de solidariedade, não percebeu o que estava acontecendo do ponto de vista econômico.

 Veja – A redução da desigualdade não é necessária?

Guedes – Sim, mas não da forma imaginada pelos socialistas. A alternância desejável é entre a social-democracia e a liberal-democracia. É o liberal-democrata de um lado, o social-democrata de outro, um com mais ênfase na criação de riqueza, o outro com mais ênfase na redistribuição. Mas nenhum dos dois pretendendo desorganizar o sistema de mercado que levou 2 500 anos para ser construído. Se uma sociedade está crescendo 2% ao ano, é melhor colocar um liberal-democrata. Aí, quando ela estiver crescendo 6%, você põe um social-democrata, taxa um pouco mais aqui para financiar projetos sociais – bolsa-família contra a pobreza absoluta, bolsa-escola pela igualdade de oportunidades, seguro-desemprego – e distribui um pouquinho a quem ficou para trás. Por isso acredito que os próximos vinte anos serão da liberal-democracia no Brasil.

 Veja – Estamos falando já das eleições deste ano?

Guedes – Espero que sim. Existe um princípio chamado pelos biólogos evolucionistas de Princípio de Gause, que é a disputa de nichos ecológicos por espécies semelhantes. Costuma ser uma luta feroz. Eu não gostaria que a disputa política que vem aí fosse apenas uma manifestação do Princípio de Gause, com o PSDB dizendo “você é corrupto” e o PT respondendo “você é que é”. Como liberal-democrata, assisto a isso com um certo prazer, mas, como brasileiro, não. Espero que surja um candidato liberal-democrata, com uma plataforma que se proponha a atacar os problemas hoje disfarçados pelo fechamento cognitivo da social-democracia. O Estado gasta 100 bilhões de reais com folha de pagamento do funcionalismo, 150 bilhões com aposentadorias, 150 bilhões com juros. E aí sobram só 10 bilhões para o Bolsa-Família. O eleitor está ávido por mudança. E já mostrou no referendo sobre o desarmamento que não aceita mais ser manipulado.

 Veja – O senhor foi um dos economistas não petistas que deram ao governo Lula o benefício da dúvida. Qual sua avaliação hoje?

Guedes – Antes da posse de Lula eu dizia que não haveria um desastre. Mas também dizia que não havia o menor perigo de dar certo. Hoje digo que Lula mostrou que não é o Hugo Chávez, não é o Fidel Castro e não é o Evo Morales. Pedir mais do que isso dele não é sensato. Ele revelou grande percepção ao fazer um pouco mais do mesmo que tinha visto. Um pouco mais de gasto social, um BC se aprimorando o tempo inteiro. O BC brasileiro é de Primeiro Mundo. Salvou a social-democracia brasileira. E é o mais apedrejado, justamente por ser o único que cumpriu aquilo a que se propôs: manteve o poder de compra dos salários, das aposentadorias, da poupança pública. Fez a parte dele.

 Veja – Qual o principal erro dos últimos governos no Brasil?

Guedes – Foi não terem percebido as oportunidades do mundo globalizado. O discurso é aparentemente moderno, fala-se em choque de capitalismo e outras coisas, mas nós não mergulhamos de cabeça no capitalismo. Usa-se um discurso moderno para atrair dinheiro externo. Mas persiste uma visão de que a globalização é negativa. E não é.

 Veja – Mas há perdedores na globalização.

Guedes – É questão de ponto de vista. Quando há maior penetração de comércio global, há uma tendência à equalização dos salários. Então o americano ou o brasileiro que trabalham numa montadora vão ganhar menos, mas o salário do chinês que passa a ter emprego numa montadora na China vai subir. Quem olha com uma visão local diz que o capitalismo está destruindo salários e empregos. Mas quem está olhando o mundo fala assim: o salário do americano caiu 30 dólares e subiu 1 dólar o salário de 1 milhão de chineses. O capitalismo não está espoliando. Está redistribuindo. Só que quem está no Brasil assiste ao salário caindo e ao juro lá em cima e diz: a culpa é do neoliberalismo. Mas se você perguntar a um chinês o que ele acha do neoliberalismo ele vai responder: “Neolibelalismo, sim, muito bom”.

Veja – O difícil é lidar com as reações locais.

Guedes – Esse é outro desafio. É claro que regionalmente está havendo impactos colossais. Os australianos espancam brasileiro, os franceses batem nos imigrantes, os skinheads alemães surram os turcos. Estamos assistindo a cenas explícitas de barbárie provocadas pelos impactos locais da nova ordem. Essa arbitragem global que comprime os salários da parte mais avançada e puxa para cima os da China, da Rússia, da Polônia, da Hungria apavora o francês, o alemão. Se além disso há as correntes migratórias, ou seja, se além de o sujeito perder o emprego porque a fábrica mudou para a Índia começa a chegar uma porção de turcos e marroquinos, é importante que se tenha isenção para garantir que a civilização continue. Porque não vale a pena escaparmos da armadilha social-democrata e cairmos no nacional-socialismo, no Le Pen (Jean-Marie Le Pen, líder da extrema direita francesa), no fechamento de fronteiras, na indústria nacional.

 Veja – Que futuro se vislumbra para o mundo diante de tantos desafios?

Guedes – Estamos no meio do deslocamento de placas tectônicas, de uma mudança brutal. Mas a economia mundial vai bem. Até pouco tempo atrás tínhamos apenas duas turbinas no mundo – os Estados Unidos e a China. Agora temos novos atores muito dinâmicos. A Rússia, o Leste Europeu, a Índia. O Japão começou a sair do estado cataléptico, e mesmo a Europa, que está naquele processo de euroesclerose há anos, começa a se flexibilizar, lentamente mas começa. Esse é o lado bom. O lado ruim é o risco de ter tudo sincronizado, porque o capitalismo é um mecanismo humano. Ou seja, falha toda hora. E, quando falha, é melhor que não esteja todo mundo sincronizado, porque aí se estabelecem mecanismos de compensação que impedem que todos afundem juntos.

Veja – E quanto ao Brasil? O que se pode esperar?

Guedes – O potencial é enorme. O Brasil está tão longe da fronteira de produção, com 50 milhões de pessoas fora do mercado, excesso de impostos, enrijecimento institucional e disfunções burocráticas, que, se houver uma desregulamentação, o país crescerá 12% ao ano durante dez anos seguidos. A riqueza de um país é construída em cima do capital educacional de seus indivíduos, do capital organizacional de suas empresas, do capital institucional de sua classe política e da ação descentralizadora do Estado atacando os problemas de desigualdades de oportunidades, desigualdades educacionais, desigualdades de renda. É nisso que o Brasil tem de apostar.

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