Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
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“Pode haver um apagão de professores”, alerta Mozart Neves Ramos

O químico pernambucano Mozart Neves Ramos conhece educação por (quase) todos os ângulos. Foi aluno da rede pública federal, foi professor de ensino médio de escola pública e de universidade, onde formou muitos dos professores que lecionam hoje. Como reitor da Universidade Federal de Pernambuco e secretário de Educação daquele Estado, chefiou muitos outros. Hoje, dirige a área de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, ONG dedicada à educação básica, que vai do 1º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio. Em todo esse percurso, acompanhou a carreira de professores no Brasil. Em seu novo livro, “Educação brasileira: uma agenda inadiável” (Editora Moderna), Mozart chama a atenção para o risco de termos um apagão de professores do ensino básico. A carreira de magistério atrai cada vez menos. O apagão se dará tanto por falta de professores para ensinar quanto por falta de qualificação dos valentes que abraçam a profissão apesar de seus problemas. A boa notícia, diz Mozart, é que a Base Nacional Comum, um currículo nacional, pode ajudar a mudar esse quadro, assim como a mobilização das famílias.

Época – Em seu novo livro, o senhor chama a atenção para os problemas que temos hoje com a formação e a carreira de professores. O senhor fala de apagão sistêmico. Do que se trata?
Mozart Neves Ramos – Hoje já existe um apagão em algumas áreas, como física e química, em que a falta de professores chega a 70% em algumas regiões do país. São os professores de língua portuguesa, geografia e história que dão aula dessas disciplinas. Logo que cheguei à Secretaria de Educação de Pernambuco, estava numa escola em Araripina, no sertão do Estado, e perguntei quem era minha colega de química. A professora de geografia se apresentou. Perguntei como ela fazia para dar aula de química, porque eu não conseguiria dar aula de geografia. Ela me disse: “Ah! Pego o livro teste e fico copiando. Se o aluno tiver dúvida, a gente tenta explicar, se não consegue, deixa para a outra semana… às vezes ele se esquece”. Eu tinha acabado de deixar a reitoria da Federal de Pernambuco, não estava preparado para aquilo, quase caí duro. Logo descobri que esse é um problema generalizado. Hoje, a falta de valorização do magistério é tão grave que, se não cuidarmos, teremos um apagão sistêmico, que é a falta de professores de forma geral. Um dado divulgado recentemente pelo jornal “O Globo” mostrou que 40% dos professores do magistério da educação básica devem se aposentar nos próximos seis anos. Baseado no número de jovens que se formam e vão realmente para a sala de aula hoje, não há como repor esse número. O mais grave é que, com o cenário econômico atual, a crise deve ser agravada. A suspensão de concursos públicos federais influenciará governadores e prefeitos a suspenderem também suas contratações.

Época – É possível estimar o deficit de professores?
Mozart – Fizemos um trabalho no Conselho Nacional de Educação em 2007 que já apontava um deficit de 250 mil professores. Metade deles das áreas de química, física, matemática e biologia. Infelizmente, esses números não estão defasados. Programas como o Universidade Aberta do Brasil, que oferece educação à distância, e o Portal Freire, para capacitação, assim como outras iniciativas, ajudaram no aumento de estudantes que entraram nos cursos de pedagogia. Mas o fluxo de saída, que são aqueles que de fato se formam, continua baixo. O caminho dos alunos de pedagogia e de bacharelado, da matrícula à formatura, funciona como um grande funil. A taxa de desistência dos alunos de física, química, biologia e matemática das boas universidades fica entre 50% e 70%. São cursos difíceis e boa parte dos alunos é guilhotinada no caminho, antes de se formar. O bom aluno que se forma nessas áreas vai para o mestrado, com uma bolsa similar ao salário inicial de um professor. Depois de conseguir uma titulação, ele vai buscar alguma universidade para ser professor no ensino superior. Quem dá aula em escola pública hoje é quem se formou em cursos de licenciatura em faculdades particulares, que muitas vezes têm problemas sérios de qualidade. Um estudo da Escola Nacional de Estatística do Rio de Janeiro mostrou que, se as coisas seguirem esse curso, a falta de professores será generalizada em 2028. Hoje, a diferença salarial entre professores e profissionais com o mesmo nível de qualificação é de 43%. Antes do piso salarial dos professores, esse percentual chegava a 57%. Com muita mobilização melhorou um pouco, mas a disparidade salarial continua gritante.

Época – O que se pode fazer para reverter esse quadro?
Mozart – O único jeito é valorizar a carreira do professor. Não falo só de dinheiro. Remuneração é essencial, mas só ela não resolverá a questão. É preciso ter um plano de carreira consistente, atrelado à formação. Hoje, mesmo ganhando pouco, os professores valorizam mais a proposta de plano de carreira do que reajuste salarial. Eles sabem que, quando conseguem muito, chegam a 10% de aumento. Um plano de carreira oferece a segurança de que se chegará a algum lugar por mérito. O profissional tem de ter perspectiva para investir no magistério. Quando eu dava aula, já tinha doutorado por uma universidade federal e meus pais tiveram de me ajudar algumas vezes. Agora, imagine um profissional com doutorado que ainda precisa depender financeiramente da família, sem perspectiva clara de quando a situação melhorará. Como alguém que quer planejar e tocar a própria vida ficará nessa carreira?

Época – E quanto a quem já está na ativa? O que pode ser feito para sanar as deficiências de formação?
Mozart – São dois tipos de abordagem. Um deles é para os professores que dão aula na área em que têm formação, mas que possuem um deficit acumulado de aprendizagem desde o ensino básico, porque muitos deles vieram de escolas ruins e foram para faculdades ruins. Temos de ter outro tipo de curso para aqueles que estão ensinando disciplinas para as quais não tiveram nenhum tipo de preparo. Não podemos simplesmente tirar esses professores dessas áreas porque senão teremos alunos no pátio, fora da sala, sem aula. Temos de dar a formação de que ele precisa. O desafio é fazer isso sem que ele deixe de dar aula. Uma saída seria usar as tecnologias de ensino à distância. Para esses professores mais maduros, as chances de sucesso desse método são grandes. Para os dois casos, tem de haver um movimento de aproximação entre a universidade e as escolas. Os professores universitários têm de se levantar da cadeira e ir para as escolas ou para os centros de treinamento para ajudar na formação dos docentes da rede básica. Isso terá dois impactos importantes. O primeiro é possibilitar o treinamento dos professores sem interromper as aulas das crianças. Não precisaremos despachá-los para a universidade porque ela virá até ele. O segundo será a adequação do treinamento às reais necessidades da sala de aula. O isolamento característico da academia é um dos responsáveis pela formação muito teórica e pouco prática que os estudantes de licenciatura recebem.

Época – A criação de uma Base Nacional Comum, que é a descrição do que cada criança deve aprender a cada ano, pode ajudar a carreira do professor?
Mozart – A Base Nacional Comum pode possibilitar a criação de uma carreira nacional. Essa é uma ideia do senador Cristovam Buarque (ministro da Educação entre 2003 e 2004). Com a base, as universidades saberão o que têm de ensinar aos professores e as escolas saberiam o que cobrar deles. Seria possível criar uma avaliação nacional. O professor pode fazer uma prova para seguir a carreira nacional, financiada em conjunto pelos governos federal, estadual e municipal, com remunerações que hoje as cidades não são capazes de bancar sozinhas. Dependendo da nota, o professor poderá escolher se fica em seu Estado ou se vai para outro que tenha vaga. O governo poderá suprir as necessidades de Estados e municípios com esses profissionais.

Época – Essas medidas serão suficientes para mudar a percepção negativa que a profissão de professor tem na sociedade?

Mozart – A classe média é quem tem a maior capacidade de influenciar essa percepção. É preciso atraí-la para dentro da escola pública, o que não será fácil. A crise que passamos hoje talvez possa gerar essa oportunidade. Muitas famílias da classe média estão com dificuldade para pagar as mensalidades. Se as crianças desses pais, que são mais alfabetizados, forem para a escola pública, não só a percepção, mas a escola, de uma forma geral, poderão melhorar, porque a pressão social para aumentar a qualidade da escola também cresce.

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