Sábado, 10 de dezembro de 2016
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“Precisamos reformar a ideia de escolaridade”

Um dos principais palestrantes do seminário Educação 360, o educador e escritor Jiang Xueqin atuou na reformulação do currículo da escolaridade secundária ligada à Universidade de Tsinghua, uma das mais respeitadas instituições chinesas. Em entrevista ao GLOBO, ele afirma que é preciso reformar a ideia de escolaridade e aprendizagem.

O Globo: As escolas de hoje são boas em preparar os estudantes para uma realidade global?
Jiang Xueqin: Muitos educadores afirmam que as escolas não estão preparando os alunos para a complexidade da realidade global que vivemos. As escolas são essencialmente um artefato da Revolução Industrial, e foram estabelecidas principalmente para fabricação em massa de trabalhadores alfabetizados e obedientes para fábricas e escritórios. Hoje em dia, vivemos num mundo extremamente complicado, e os profissionais do conhecimento precisam ser capazes de localizar informações, sintetizá-las, comunicá-las e, em seguida, agir sobre elas. Esses profissionais precisam estar constantemente atualizando suas habilidades, se comunicando através de línguas e culturas, e trabalhando com indivíduos de várias origens.

O Globo: Por que isso é importante?
Jiang Xueqin: Para preparar os alunos para uma realidade em que o conhecimento está sempre mudando, as escolas estão se concentrando em quatro pontos: criatividade, colaboração, pensamento crítico e comunicação. Mas aqui está o paradoxo. Você não pode explorar este conjunto sem ensinar outro grupo tão fundamental: caos, complexidade, mudança e contradição. Para prosperar no mundo moderno, é preciso perceber que as coisas podem acontecer ao acaso e que tudo está interligado muito densamente, desafiando a simplificação.

O Globo: Com mudar isso então?
Jiang Xueqin: Precisamos reformar fundamentalmente a ideia de escolaridade, aprendizagem e educação. Por que nós fechamos nossos alunos em salas de aula durante todo o dia? Será que eles não têm nada de positivo e substancial para contribuir com a sociedade? Se estamos pedindo aos nossos professores para ensinar os alunos a aprender, por que não estamos pedindo aos nossos professores para aprender também?

O Globo: Você já disse que as escolas chinesas são muito boas em preparar seus alunos para testes, mas não conseguem prepará-los para a chamada “economia do conhecimento”. Por quê?
Jiang Xueqin: Psicólogos descobriram que o cérebro tem dois centros de processamento de pensamento que se excluem mutuamente. O primeiro é altruísta, e toma decisões com base em nossas conexões emocionais com as pessoas. O segundo é utilitarista, e se baseia em nosso benefício material. Descobriram, ainda, que o centro altruísta é também o local de empatia, inteligência emocional e criatividade, todas necessárias para o conhecimento. Infelizmente, por causa de seu foco em testes padronizados, o sistema educacional chinês enfatiza a unidade utilitarista dos alunos, o que limita o desenvolvimento de sua empatia, inteligência emocional e criatividade.

O Globo: Quais os riscos dessa realidade?
Jiang Xueqin: Segundo psicólogos, o foco na unidade utilitarista torna as pessoas infelizes e inseguras, mais propensas a mentir. Incentivar pessoas através de prêmios por desempenho ativa sua movimentação utilitária, elevando a probabilidade de estresse, insegurança e trapaça. A curto prazo, isso aumenta a produtividade, mas a longo prazo diminui, e destrói a motivação interna. É o que vemos na China de hoje. Todo mundo está buscando atalhos e trapaças. Poucas pessoas têm prazer e orgulho de seu trabalho, e é por isso que a maioria dos produtos chineses é inferior.

O Globo: O que a presença de Xangai no topo do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) proporcionou ao país?
Jiang Xueqin: O fato de ter ficado em primeiro lugar em 2009 e 2012 deu aos educadores a confiança para buscar uma reforma radical. Desde 2010, as escolas chinesas começaram a modernizar e internacionalizar seu currículo. Dentro da sociedade, todo mundo está mais esclarecido sobre as lacunas do sistema educacional, e há um desejo real de aprender com o resto do mundo e experimentar. Se a China tivesse ido mal, haveria mais resistência às mudanças.

O Globo: Em que aspectos o país precisa melhorar agora?
Jiang Xueqin: Nos anos 1980 e 1990, a economia chinesa cresceu porque seu sistema de ensino havia produzido um excedente de trabalhadores da indústria alfabetizados e engenheiros. Mas a China não pode mais contar com mão de obra barata para alimentar seu crescimento. Se quer ser globalmente competitiva, é preciso profissionais do conhecimento e criativos, especialmente em design, TI e gestão. O sistema escolar de comando e controle é ruim em educar a classe criativa. Agora a China está tentando descobrir como reformar o seu sistema de ensino. Será um processo de descoberta gradual que vai levar de cinco a dez anos, talvez mais.

Fonte: O Globo, 9/8/2015

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