“Falta a governança ideal no Brasil”

Maryantonett Flumian is President of the Institute on Governance and she talks to Kathryn May about the survey they have done on Canadian views of the public service. Assignment - 119307 Photo taken at 12:16 on December 15. (Wayne Cuddington/ Ottawa Citizen)

O Brasil passa por um momento de ajuste fiscal, focado no corte de gastos públicos e aumento de impostos. A pressão causada pelo desequilíbrio nas contas do governo, porém, pode ser uma oportunidade para se aprimorar a governança do setor público, segundo a presidente do Instituto de Governança do Canadá, Maryantonett Flumian.

Para a especialista, que liderou a implementação, em 2005, de um modelo de gestão que concentrou serviços públicos oferecidos aos cidadãos em um único órgão, quando foi vice-ministra de Serviços do Canadá, a pressão fiscal gera “oportunidade para aprimorar a governança, porque, com as costas na parede, o governo reage de forma inovativa”.

Em um contexto de corte de gastos, Flumian defende que o governo use a tecnologia e seja criativo para otimizar a gestão e racionalizar recursos disponíveis. Veja a seguir os principais trechos da entrevista com Maryantonett Flumian, que veio ao Brasil a convite do governo de São Paulo, para um debate sobre o uso de novas tecnologias no atendimento na área de serviços públicos.

O Estado de S. Paulo: Como boas práticas de governança já existentes podem melhorar o serviço público?Maryantonett Flumian: A governança é a cola que aglutina a sociedade e um bom serviço público é a máquina que faz o modelo funcionar, tentando capturar aspirações dos cidadãos e dando suporte para líderes políticos tomarem decisões. Implementar um serviço moderno é fundamental para chegar onde queremos no século XXI, especialmente durante crises fiscais.

O Estado de S. Paulo: O desequilíbrio fiscal nas contas do governo ameaça a melhoria da gestão do setor público?
Maryantonett: Definitivamente não. A pressão fiscal representa uma oportunidade para se aprimorar a governança, porque, quando o governo está com as costas na parede, talvez ele comece a reagir de forma inovativa.

O Estado de S. Paulo: Mas não seria preciso investir?
Maryantonett: Estou convencida de que não é necessário. Você precisa racionalizar os processos em vez de fazer algo muito diferente. É preciso ser mais criativo, e, também, mais radical em algumas mudanças. Assim, o governo consegue economizar para, depois, reinvestir. Apenas cortar custos, sem inovação, não reforça um bom modelo de governança.

O Estado de S. Paulo: Qual a principal medida para melhorar a governança?
Maryantonett: Eu acredito fundamentalmente que colocar o cidadão no centro dos modelos de governança começa a mudar tudo. A maneira como o governo vem se organizando até agora não funciona mais. A tecnologia deve ser mais utilizada para possibilitar que o setor público entenda o que a sociedade precisa. A confiança no governo é influenciada pela experiência do cidadão de obter e receber serviços públicos de forma fácil, rápida e eficiente. As tecnologias devem trabalhar a nosso favor.

O Estado de S. Paulo: Qual o principal desafio para se adotar de um modelo sólido de governança?Maryantonett: Todos os países têm os mesmos desafios nesta área. Os modelos de governo não se encaixam mais no atual mundo digital, onde informação e pessoas se movem tão rápido. Em São Paulo, por exemplo, é preciso descartar processos do serviço público que não servem mais para otimizar a gestão e reduzir custos.

O Estado de S. Paulo: Como a senhora vê a governança do setor público brasileiro?
Maryantonett: O Brasil tem governança, mas provavelmente não é a certa para o seu tempo. É importante colocar o cidadão no centro, pois apenas assim é possível mudar o modelo de governança de forma que o governo consiga atender aos interesses da sociedade como um todo.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 16/6/2015

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