Domingo, 4 de dezembro de 2016
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Raul Velloso defende apoio dos governadores a reformas

Um dos maiores especialistas em contas públicas do Brasil, o economista Raul Velloso, PhD. pela Yale University (EUA), recomenda o apoio dos governadores à aprovação de reformas pelo Congresso Nacional para reduzir o risco Brasil e, assim, viabilizar a volta dos investimentos e a retomada do crescimento econômico. Para ele, quem tem que liderar o envio das propostas de reformas ao Congresso e a defesa das mesmas é a presidente Dilma Rousseff. O economista conversou na sexta-feira com o governador Raimundo Colombo e os secretários de Estado da Fazenda, Antonio Gavazzoni e do Planejamento, Murilo Flores sobre o que o governo catarinense vem fazendo para enfrentar a crise. Colombo disse a ele que também acredita na união dos Estados para conseguir mudanças. Confira a entrevista de Velloso para o DC.

Na sua avaliação, as medidas de crédito anunciadas pela presidente Dilma na reunião do Conselhão vão permitir a retomada do crescimento econômico?
Numa visão geral, esse tipo de medida tende a não ter muito resultado em termos de ajuda na recuperação da economia. O problema é que eles estão facilitando e ampliando as possibilidades das pessoas tomarem empréstimos. Isso ajuda a expandir o crédito, mas é preciso saber se do ponto de vista das pessoas, elas vão querer isso. Podem não estar dispostas a se endividar mais. Onde houver disposição de mais endividamento, a oferta de mais crédito vai ter algum efeito. No caso do crédito consignado, se o banco reduzir a taxa, pode ser que algumas pessoas tenham espaço para se endividar mais.

O problema é falta de crédito?
Hoje, o problema não é muito de falta de dinheiro para as pessoas se endividarem para fazerem aquisições de mercadorias. É mais falta de condições para tomar mais crédito. Se eu estou com dificuldade financeira para fechar minhas contas, com medo de perder o emprego, porque eu vou tomar mais dinheiro do banco? Enquanto a economia não melhorar e der mais estabilidade para as pessoas, vai ser muito difícil elas tomarem crédito, mesmo com oferta maior.

O que a presidente Dilma precisa fazer para a economia melhorar?
Ela tem que mudar a percepção de risco do país, que está muito ruim. Esse é o ponto central: melhorar essa percepção de risco que afeta todos os que transacionam com o Brasil. Se você olhar a taxa de risco do país medida no exterior, hoje ela está muito, muito maior do que era há seis meses. Se você pegar o CDS, um título de 10 anos, ele dá ideia do crescimento dessa taxa. Isso se traduz num custo de dinheiro muito mais alto. Há duas coisas que acompanham a subida da taxa de risco: a elevação do custo do dinheiro para investimentos e da taxa de câmbio. A taxa de risco subindo, derruba a taxa de investimento. Esse é o ponto central. Para o país sair da recessão, a presidente Dilma tem que criar condições para a taxa de investimento subir, e a maneira mais rápida de fazer isso é reduzindo a taxa de risco.

Como reduz a taxa de risco Brasil? 
Aí vem para o lado fiscal, que é a minha área. A única coisa que ninguém consegue arrumar é o lado fiscal. Eu continuo chamando a atenção para esse problema. Para mudar isso, o país precisa de superávit fiscal elevado. É preciso transformar déficit em superávit. O mercado aponta que este ano teremos um déficit primário de 1,4% do PIB enquanto precisaríamos de um superávit primário de 2%. É um ajuste de 3,4% para que as expectativas melhorem e a percepção de risco caia. No fundo, a questão é fiscal.

A presidente pediu apoio para a aprovação da CPMF visando o ajuste fiscal. Qual é a sua opinião sobre isso? 
A reação das pessoas é: por que um imposto novo? Ela teria que cortar na carne. Vão sugerir para mandar embora funcionários públicos. Ela não pode fazer isso porque eles têm estabilidade no emprego.

Então, o que é possível fazer?
Eu acredito que resolveria a presidente apresentar um programa de mudanças estruturais que vão exigir mexer na Constituição. À medida que forem aprovadas, ainda que a implementação não seja imediata, elas vão melhorar as expectativas. É preciso introduzir mudanças que têm efeitos no futuro. Ela não vai tomar nenhuma medida que vai ter efeito amanhã. As pessoas entendem a impossibilidade imediata de redução de custos. Mas saberão que com as mudanças na lei, no médio prazo, as melhorias vão acontecer. Aí a taxa de risco vai desabar de uma hora para outra. Basta aprovar as mudanças estruturais.

Quais são reformas mais importantes para o atual momento?
As áreas principais para reforma são a Previdência, assistência e pessoal. São três áreas críticas para reformas. O ideal seria a presidente Dilma estender reformas para outros segmentos. Isso ajudaria a economia crescer mais. Você também ajusta pelo lado da economia porque o que importa é sempre a relação dívida/PIB. Por exemplo, reformas na área da rigidez da legislação trabalhista. Isso ajudaria muito. Numa segunda linha há reformas voltadas ao crescimento da economia, ao aumento da competitividade. Por exemplo, a redução da burocracia e da exigência do conteúdo local. Pode não crescer o segmento que a presidente quer, mas o conjunto cresce mais.

Qual é o motivo da sua visita ao governo de Santa Catarina?
Quando visito os Estados, como sou consultor e palestrante, procuro conversar com governos para entender o que está acontecendo. Vejo que os Estados têm muito mais dificuldades do que a União para lidar com crises como a que enfrentamos. Temos dados que são públicos, verifico e vou lá perguntar. Veja o exemplo do Rio, que está numa situação muito difícil. Eles usaram R$ 6 bilhões de depósitos judiciais para equacionar um déficit financeiro que enfrentam este ano. Minha curiosidade é ver o tamanho do buraco e como estão resolvendo.

Essa receita que o senhor dá para a União de fazer reformas vale também para os Estados? 
Vale também, mas o impacto é menor porque quando um faz reforma, o outro não faz. Por isso eu acho que os governadores deveriam se juntar com o governo federal e ajudar a viabilizar as reformas que eu mencionei porque, depois, eles se beneficiariam pela retomada do crescimento econômico. Daí a arrecadação cresce e os Estados saem da crise. É claro que o tanto que eles puderem fazer, vai ajudar a resolver o problema atual. Mas hoje estamos com problema no quintal maior, a União. Por isso estou sugerindo que eles se juntem e vão ao Congresso. É na linha do que o ex-ministro Delfim Netto sugeriu para a presidente Dilma. Ir ao Congresso promover as reformas. Se os governadores participarem, vão dar mais força a ela. Eu estou convencido: ou eles se juntam ao governo e vão ao Congresso pensando no interesse da nação e apresentam um programa que reduz o risco e faça a economia crescer, ou a gente não vai sair desse imbróglio tão cedo.

Fonte: “Diário Catarinense”, 31 de janeiro de 2016

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