Sábado, 10 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A revolução da economia colaborativa

São Paulo — A empresa de transporte privado Uber e o site de aluguel de imóveis Airbnb criaram negócios bilionários com seus serviços digitais — o que vem sendo chamado de economia colaborativa. Para Pedro Videla, diretor do departamento de economia da escola de negócios espanhola Iese, uma das dez melhores do mundo, esse modelo abre um novo capítulo na história do capitalismo.

Em sua visão, o uso da tecnologia está reduzindo os custos e rapidamente elevando a eficiência da economia como um todo. “Tentar proibir as empresas não vai impedir que o modelo cresça”, diz. Videla falou a ­Exame por telefone antes de embarcar para o Brasil para participar de um evento em São Paulo.

Exame – Muitos economistas afirmam que a economia colaborativa é um novo modelo capitalista. Não existe certo exagero nessas afirmações?

Videla – Acredito que não. Está em curso um processo de evolução do capitalismo. A internet e os smartphones estão reduzindo os custos de transação dos serviços — que inclui o tempo que as empresas gastam com a burocracia e com a busca por informação sobre fornecedores. Sem essas barreiras, ficou mais fácil conectar prestadores de serviço com seus clientes, como é o caso do aplicativo de transporte Uber.

Exame – O Uber une motoristas a usuários. Qual é a grande inovação dessa empresa?

Videla – No caso do Uber, o serviço em si não é uma inovação. Mas a maneira como a empresa opera faz toda a diferença. Graças à tecnologia, o Uber consegue funcionar com um modelo enxuto e repassa parte da redução de custos para os usuários. Esse conceito, replicado em outras áreas, é fundamental para melhorar a prestação de serviços.

Exame – O que isso muda para as empresas?

Videla – Em boa parte dos setores, teremos empresas muito mais eficientes do que no passado. Com o surgimento da economia colaborativa, hoje podemos sonhar com uma companhia que consiga sobreviver só com mão de obra terceirizada.

Exame – Essa mudança está restrita ao setor de serviços?

Videla – Por enquanto sim, mas deve se espalhar em breve para outros setores. Hoje, o modelo é baseado no compartilhamento de bens excedentes, como um carro ou um apartamento. Mas é possível que um indivíduo passe a vender produtos criados em uma impressora 3D, o que terá consequências para a indústria tradicional.

Exame – O senhor vê um impacto nas indústrias pesadas?

Videla – Neste caso, não. Vamos continuar comprando carros de grandes montadoras, porque é lá que produtos desse tipo são feitos de maneira mais eficiente. Os setores mais impactados serão aqueles em que o modelo colaborativo permite uma diminuição de custos.

Exame – Os protestos contra essas inovações devem aumentar, repetindo o que acontece com o Uber?

Videla – A economia colaborativa é a melhor forma de acabar com setores ineficientes. As pessoas sempre querem algo melhor e mais barato. Tentar proibir as empresas, como ocorre com o Uber e o Airbnb, não vai impedir que o modelo cresça.

Exame – O senhor é contra a regulação desses serviços?

Videla – Não. Uma consequência negativa da economia colaborativa é a queda na arrecadação de impostos, um grande problema para os governos. Algum tipo de regulação é necessário. Mas espero que se evite uma burocracia exagerada.

Fonte: “Exame”, 3 de fevereiro de 2016.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.