“As startups têm um impacto social enorme”

Abaetê de Azevedo

Abaetê de Azevedo, presidente da DAS

Baixo investimento inicial, foco em tecnologia e inovação, além de risco elevado. Essas são as principais características das startups — empresas de base tecnológica, que nascem com uma ideia inovadora e buscam um novo modelo de negócios. Segundo a Associação Brasileira de Startups, estima-se que existem dez mil negócios desse tipo no Brasil. Em 2012, eles movimentaram quase R$ 2 bilhões.

Promissor, o mercado de startups têm atraído investidores estrangeiros. A Diversified Agency Services (DAS) da Omnicom — maior conglomerado mundial de comunicação — está ampliando sua atuação no Brasil por meio de aquisições e startups. Presidente da DAS, Abaetê de Azevedo prevê o crescimento da participação desse tipo de empresa na economia nacional. “Não vamos ter um ambiente povoado apenas por poucas e grandes empresas. O ambiente empresarial começa a ser povoado de pequenas e médias empresas, gerando mais emprego e diversificando a economia”, diz.

Para Abaetê, o Custo Brasil é um dos principais desafios para o desenvolvimento de empresas de pequeno e médio portes. Assim como no caso das grandes corporações, as startups também têm dificuldades com o excesso de burocracia e impostos. “Elas já nascem com a sua lucratividade comprometida em função do ambiente hostil à iniciativa privada”, lamenta. Leia a entrevista:

Instituto Millenium: Por que investir em startup no Brasil?

Abaetê de Azevedo: O Brasil e a China são considerados países chaves para os investimentos. Os Estados Unidos descobriram há muito tempo que precisam ganhar mais dinheiro internacional. Está mais difícil de fazer esse dinheiro na Europa, então os países emergentes, como o Brasil e a China, surgem como opções.

Imil: Em que tipo de startups a Omnicom investe?

Abaetê: A Omnicom DAS (Diversified Agency Services) é um braço da nossa holding que se estabeleceu no Brasil para promover o desenvolvimento e o investimento em startups. Fundamos agências de comunicação que não trabalham com a comunicação tradicional. Há uma ênfase clara no mercado digital porque o mundo inteiro está se digitalizando.

Nosso objetivo é a diversificação. Nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, as agências de serviços diversificados já são bem desenvolvidas. Enquanto o Brasil e a América Latina continuam sendo o reino da propaganda e da promoção. A propaganda massiva funciona muito bem em países de dimensões continentais como o Brasil porque ela dissemina rapidamente o lançamento de novos produtos.

Mas as empresas que estão no Brasil já descobriram que há muitas outras formas de se comunicar, além da propaganda e da promoção do tipo “leve três e pague dois”. O objetivo da Omnicom é surpreender os nossos clientes. Trabalhamos com startups que já emplacaram nos Estados Unidos e na Europa. A nossa incubadora tem um conceito diferente de startups. Nossas startups não são tentativas. Trazemos iniciativas de sucesso no exterior que ainda não chegaram aqui. A gente não têm tido nenhum caso de insucesso.

Imil: As startups têm uma estrutura muito diferente das empresas tradicionais. Muitos negócios estão sendo repensados e reestruturados em função disso. Qual a importância de diversificar os negócios?

Abaetê: Os clientes que montaram suas campanhas de marketing há trinta anos só pensavam em propaganda e promoção. Agora, eles estão tendo que se reestruturar porque precisam incorporar profissionais especializados em internet para que a empresa se adeque ao consumidor, que já não se desloca com tanta frequência aos pontos de venda. Então, as startups podem impactar em um futuro próximo no redesenho das estratégias de marketing.

Imil: Qual é a participação, o impacto das startups na economia brasileira?

Abaetê: Do ponto de vista do volume de dinheiro produzido, o impacto ainda é pequeno. Agora, se falarmos de impacto social, estamos no início do que virá a ser uma imensa onda de novos empregos. Não vamos ter um ambiente povoado apenas por poucas e grandes empresas. O ambiente empresarial começa a ser povoado de pequenas e médias empresas, gerando mais emprego e diversificando a economia. Como são empresas baby, as startups produzem pouco dinheiro, mas elas têm um impacto social enorme porque modernizam e ampliam o raciocínio estratégico de negócios do país. Maneiras novas de pensar oxigenam a economia.

Imil: Para citar apenas um caso de startups de sucesso, destacamos a Easy Taxi que foi notícia recentemente por receber um grande aporte de capital. Isso não contraria a sua teoria do baixo impacto econômico das startups?

Abaetê: Quando falo de movimentar a economia estou falando de capital, de milhões produzidos. Sou um fã da Easy Taxi como um usuário e como um profissional do ramo, mas ela ainda não movimenta grandes somas de dinheiro. Inclusive, eles estão enfrentando resistências por parte dos taxistas. O aplicativo não é uma unanimidade entre os profissionais da área. Eles ainda têm um longo caminho para percorrer para ter impacto na economia. O Easy Taxi tem um impacto social e uma visibilidade muito grande porque é uma ideia extremamente inovadora.

Imil: Em geral, seria correto afirmar que as startups brasileiras têm baixo impacto econômico e alto impacto social?

Abaetê: Sem dúvida. Do ponto de vista social, a população está sendo mais bem atendida. O táxi é um serviço de transporte público e o Easy Taxi é um sistema que te dá segurança não só pela velocidade, mas também pela qualidade do atendimento, com motoristas cadastrados. O impacto é tão grande que os pontos de táxi começam a desaparecer. O ponto agora é no celular de cada um de nós.

Imil: As startups vivenciam os mesmos desafios das empresas tradicionais como a burocracia e o alto índice de impostos?

Abaetê: O maior sócio que nós temos hoje é o governo. As startups, assim como as empresas tradicionais, precisam seguir a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Claro que o funcionário tem direito a proteção, mas as nossas leis são do tempo do Império, onde o patrão era como um senhor feudal que explorava os empregados e não dava o mínimo de assistência.

Para abrir uma empresa nos Estados Unidos são necessários apenas três dias, aqui esse processo leva de dois a três meses. Além disso, existem os custos com os funcionários contratados para responder todos os relatórios e calcular os impostos exigidos pelo governo. Então, eu tenho custos adicionais só para administrar a burocracia do governo. Esse sistema arcaico está estrangulando o país. As startups já nascem com a sua lucratividade comprometida em função do ambiente hostil à iniciativa privada.

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