“Falta ambição global a empreendedores”

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Fundador e presidente do Conselho Deliberativo e da Assembleia de Associados do Insper, Claudio Haddad, 70 anos, tem uma trajetória inspiradora de empreendedorismo. Engenheiro e economista com PhD pela Universidade de Chicago, foi professor da Fundação Getulio Vargas, dirigiu o Banco Central por dois anos na década de 1980 e foi sócio e diretor superintendente do Banco Garantia durante 15 anos.

Depois da venda do banco, criado por Jorge Paulo Lemann, Haddad, que é filho de professores, resolveu migrar do mercado financeiro para o setor de educação.

Em 1998, Haddad virou um dos acionistas do Ibmec, escola que havia sido criada em 1970. A instituição tinha unidades em São Paulo, em Minas Gerais e no Rio de Janeiro. Em 2004, o Ibmec São Paulo se tornou independente do grupo e passou a ser uma instituição sem fins lucrativos. O braço paulistano foi renomeado em 2009: o Insper, sigla para “inspirar, pertencer e transformar”, desfez, então, os vínculos com a instituição-mãe. No ano passado, a DeVry Brasil, braço do DeVry Education Group (EUA) no país, anunciou a compra do Grupo Ibmec por R$ 699 milhões.

O Insper ocupa hoje um prédio de 10 mil metros quadrados na Vila Olímpia, em São Paulo. Mais de 10 mil alunos já se formaram em seus cursos de graduação e pós-graduação. A escola herdou a vertente financeira do Ibmec, focando nas áreas de administração, engenharia e economia.

Desde o ano passado, Haddad concluiu seu processo de sucessão, passando a presidência para Marcos Lisboa, PhD em economia pela Universidade da Pensilvânia e vice-presidente da instituição entre 2013 e 2015. O processo, quase sempre duro para os empreendedores, foi feito racionalmente por Haddad, mas não sem deixar rastros emocionais. “Você se preocupa com a perenidade do negócio, que não pode depender exclusivamente de você. Não foi fácil, mas está sendo feito”, diz, em entrevista exclusiva a “Pequenas empresas e grandes negócios”.

Foi também em 2015 que o empreendedor realizou um sonho antigo: criar um curso de engenharia com foco no empreendedorismo. “A gente poderia ter muito mais startups aqui em São Paulo. Nosso curso de engenharia foi bolado com isso em mente: formar um ecossistema com integração entre academia, empreendedores, empresas e financiadores, como existe em Boston, São Francisco e Tel Aviv”, diz. “Falta esse tipo de interação maior entre a parte acadêmica e a parte empresarial”, afirma. Haddad fala ainda sobre economia, crise e educação na entrevista a seguir.

Qual a sua expectativa para a economia brasileira em 2017?
Eu estou moderadamente otimista e acho que as coisas melhoraram. As medidas no âmbito econômico que estão sendo tomadas estão todas na direção correta. Hoje, é preciso urgentemente resolver o problema fiscal. A PEC dos gastos é essencial porque deixa claro que alguma coisa vai ser cortada, já que até agora os gastos e o déficit só aumentaram. Com o limite nos gastos, começa uma discussão explícita e transparente sobre o que fazer daqui em adiante. Com um crescimento de 1% ao ano não dá para fazer tudo que se quer fazer. Precisamos voltar a crescer a uns 3% ou 3,5% ao ano. Para isso, serão mais uns dois anos de ajustes antes de entrar em uma rota de crescimento. Mas eu acho que o macro é um pano de fundo. Precisa atacar todo o lado micro também, desde educação, que é sempre uma pedra no sapato há séculos, até todas as coisas referentes ao ambiente de negócios.

Do seu ponto de vista, esse cenário é pior para algum setor?
Temos um setor que está indo bem e continuará, que é o agronegócio. O Brasil tem várias vantagens competitivas nessa área. Por outro lado, temos a indústria de transformação, que está em crise profunda. Esse modelo vai ter de ser repensado e, ao meu ver, inteiramente modificado para atender à realidade do mundo atual. As cadeias produtivas são integradas. A indústria brasileira tem que ter competitividade em nível mundial, o que só vai acontecer se abrirmos a economia para que os empresários comprem matéria-prima e equipamentos com mais facilidade. O Brasil precisa criar oportunidades de expansão. Assim, a indústria brasileira poderá ter algumas empresas que serão campeãs internacionais no futuro. Em serviços, nós temos de cuidar da parte tributária, que é um rolo tremendo, com regulamentações conflitantes e insegurança jurídica. Tem muita coisa que tem de ser mudada. Mas esse movimento não difere de nenhum outro país emergente. É um processo que não termina nunca, mas tem de começar em algum ponto.

O que poderia ser feito para melhorar esse cenário para os novos empreendedores?
Tem uma série de coisas que podem ser feitas. A simplificação burocrática, de abrir e fechar empresa, é uma delas. Isso é extremamente difícil no Brasil, mas não é tão complicado de mudar. É uma agenda que pode ser tocada sem maiores ruídos e conflitos entre vários grupos políticos. Já a parte tributária, também essencial, é mais complexa.

Uma pesquisa recente mostrou que as universidades brasileiras ainda incentivam pouco o empreendedorismo. Como você enxerga esse cenário?
A gente poderia ter muito mais startups aqui em São Paulo. Nosso curso de engenharia no Insper foi bolado com isso em mente: formar um ecossistema com integração entre academia, empreendedores, empresas e financiadores, como existe em Boston, São Francisco e Tel Aviv. Falta esse tipo de interação maior entre a parte acadêmica e a parte empresarial.

Isso é cultural?
Eu acho que não é algo cultural. Eu vejo brasileiros nos Estados Unidos se comportando como americanos. O fato é que as universidade federais, como recebiam verba do governo garantida, não precisavam ter essa relação com empresas para conseguir mais fundos. O governo dava dinheiro e não cobrava resultados objetivos. Até hoje é assim. Nos Estados Unidos, vemos pesquisas feitas com empresas que geram resultados financeiros para as instituições de ensino. As melhores universidades do mundo têm dinheiro de várias fontes: do governo, de empresas e pessoas físicas, e os acadêmicos são independentes. Desde que seja transparente e com isenção, isso pode ser perfeitamente replicado aqui.

Qual o papel da educação na formação dos empreendedores?
As pessoas ganham, sendo empreendedoras ou não, com uma boa educação formal. Penso que é preciso combinar conteúdo com outras competências para vida, como trabalhar em grupo, interpretar fenômenos, lidar com situações de conflito e saber resolver problemas. A educação deveria transmitir isso como objetivo de aprendizado. É importante entender de onde viemos, como o mundo funciona. Quem não passa por esse processo, mesmo sendo um empreendedor nato, vai esbarrar em obstáculos enormes. As pessoas dizem que o Bill Gates não acabou a faculdade, mas ele entrou em Harvard. Era bom aluno, ou então não entraria. Se a pessoa vai empreender, não adianta encher o sujeito de teoria, precisa casar conteúdo com outras competências.

Vimos nas últimas pesquisas o aumento de empreendedores por necessidade. Como o senhor vê isso? É saudável para a economia?
É melhor que aconteça isso do que a pessoa continue desempregada. A questão é que esses empreendedores raramente vão muito para frente. No Brasil, tem muito empreendedor que não tem o objetivo de fazer a empresa crescer. Temos poucos empreendedores com ambição global no Brasil. As pessoas se contentam em ter uma empresa boa, que é a melhor do bairro, do estado ou mesmo do país, mas não pensam em ser a melhor do mundo.

O que o motivou a empreender no mercado de educação?
Sou filho de professores. Depois que vendemos o banco [Garantia, em 1998], queria mudar de vida e achei que tinha na educação uma boa oportunidade. Fui aprendendo ao longo do tempo. Fiz coisas erradas, que depois foram consertadas. O objetivo era fazer o melhor possível. Educação é um setor tradicional e conservador, então a resistência para mudança é grande. A vantagem do Ibmec São Paulo, que depois virou Insper, é que começamos do zero. Pudemos testar e implementar o que achávamos que dava certo. E até hoje temos essa cultura de sempre revalidar nossas hipóteses.

Quais foram seus principais desafios como empreendedor?
Acho que as pessoas são o principal desafio e também o melhor de empreender. Elas são a solução e muitas vezes o problema. O gestor tem de saber lidar com elas, incentivá-las, liderar, reconhecer o perfil de cada uma. Essa é sempre a parte mais desafiadora. O resto vai bem, tem problemas, mas tudo é mais ou menos facilmente resolvido. Ter as pessoas certas e incentivá-las e construir um ambiente bom de trabalho é a coisa mais complexa. Fiz minha sucessão no ano passado e, para o empreendedor, isso é muito marcante. Você se preocupa com a perenidade do negócio, que não pode depender exclusivamente de você. Não foi fácil, mas está sendo feito.

Qual seu conselho para os novos empreendedores?
Eu ainda acho o Brasil um país extraordinário, que oferece muitas oportunidades. Mas é um país difícil, complexo, exige muita determinação e trabalho. Ser empreendedor é muito bom no Brasil, apesar de todos os problemas. Para começar, é preciso muito foco e determinação, saber que as coisas não vão sair como planejadas e ter a capacidade de mudar o rumo ao longo do tempo.

Fonte: “Pequenas empresas e grandes negócios”, 16 de novembro de 2016.

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