“Trump alavanca China entre emergentes”, diz Monica de Bolle

Para a economista Monica de Bolle, os emergentes devem se preparar para dias piores para o comércio internacional. O pacote tributário de Donald Trump, o novo presidente dos Estados Unidos, tem grandes chances de atrair investimentos e inibir as importações por lá. Isso não significa o fim da globalização, mas indica uma nova etapa, que terá a China como protagonista. “Se a globalização passar a ser chefiada pelos emergentes, ela continua”, diz Monica. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado, por telefone, de Washington, onde mora.

O que se pode esperar para a economia internacional quando o presidente da China defende a globalização e o dos Estados Unidos, o protecionismo?
Virou tudo de cabeça para baixo, né? A gente não sabe exatamente que tipo de globalização a China defende, porque ela tem seus interesses, mas claramente existem divergências grandes entre países avançados e emergentes. A questão vai além dos Estados Unidos. Tivemos também o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia). Temos movimentos nacionalistas na Europa e todos, por serem nacionalistas, são protecionistas e antiglobalização. Vamos lembrar que globalização não é apenas fluxo de bens, serviços e transações financeiras, mas também de gente.

Por que a reação dos emergentes é diferente?
Todos os estudos empíricos, quer sejam acadêmicos ou de organismos multilaterais, como o Banco Mundial, mostram com muita clareza que o processo de integração comercial, financeira e de pessoas foi especialmente benéfico para os emergentes. Alguns se beneficiaram mais – e a China foi um deles. Os emergentes estão perplexos com essa rejeição imensa e como isso vai afetar o seu crescimento e o crescimento do mundo. É uma situação complexa. É difícil de prever resultados.

A sra. define Trump como um populista, sem orientação política, e diz que todo populista é gastador. Quais os efeitos para o mundo de se ter um populista gastando mais nos EUA?
O populista existe à esquerda e à direita. O que muda é a retórica. O de direita tem essa coisa nacionalista, é contra a imigração. O populista de esquerda clássico, latino-americano, defende os mais pobres. Retórica à parte, as políticas econômicas são parecidas e envolvem expansão fiscal. O que foi dito que se pretende fazer nos EUA é uma mudança bastante radical na estrutura tributária.

De que maneira?
A proposta incluiria redução forte do imposto corporativo, que aqui basicamente é o Imposto de Renda sobre Pessoa Jurídica. Querem uma redução expressiva da alíquota média de 35% para 20%. É possível que haja um ajuste no imposto de importação na fronteira – o border adjustment tax, chamado de BAT. Tecnicamente é um pouco complicado, mas, na essência, tributaria as importações. Sem que se tenha clareza de como será instituído o BAT, não dá para saber o tamanho da perda de receita do governo. Há muita discussão aqui sobre como essa reforma tributária afetaria a taxa de câmbio, o dólar. Há quem diga que não terá efeito prático. Mas há dúvidas. No Peterson Institute, onde eu trabalho, estamos fazendo uma série de estudos tentando ver se haveria efeitos e quais seriam as possíveis reações do câmbio.

A proposta parece o pior dos mundos para os emergentes.
Sim. É o pior dos mundos. E o melhor termômetro para o efeito disso sobre a América Latina, a região mais dependente dos Estados Unidos, é o México. Um número grande de empresas está no México para exportar para os Estados Unidos. As projeções de crescimento vêm caindo sistematicamente. No início do ano passado, previam crescimento de 3% este ano. Hoje, as previsões já estão próximas de 1,5%. Já tem analista no México prevendo recessão neste ano.

Qual o cenário para o Brasil?
As empresas instaladas no Brasil têm uma particularidade: não exportam para os Estados Unidos a partir do Brasil. Sendo o Brasil o país complicado e fechado que é, elas estão aí para explorar o mercado interno. O Brasil não sofreria do mesmo problema do México. Mas o mercado interno no Brasil não atrai neste momento. Mesmo com a perspectiva de melhora no longo prazo – porque as empresas olham mais adiante para tomar decisões –, ainda assim a política de Trump pode fazer com que as empresas americanas priorizem investir nos Estados Unidos.

Parte da estratégia do governo atual é acelerar abertura comercial para ajudar na recuperação. Isso fica comprometido, então?
Sei que há alguns grupos de trabalho no Brasil pensando em fazer algum tipo de acordo bilateral com os Estados Unidos. É uma iniciativa importante, mas não é o melhor momento para tentar sair do isolamento. Quem pensa em acordos nessa administração pensa em acordos Norte-Norte, e não Norte-Sul. O tipo de gente que Trump colocou no Departamento de Comércio vai trabalhar para que os interesses americanos prevaleçam.

O que lhe parece o time econômico dele?

Tem apenas um economista, Peter Navarro, que ficou com a direção do Conselho Nacional de Comércio – e esse cara é anticomércio e antiChina. Wilbur Ross, secretário de Comércio, é do setor de aço.

O chamado rei da bancarrota?

Sim. Ele é aquele cara que compra empresas falidas. A mesma coisa que Steven Mnuchin, o eventual secretário do Tesouro, faz. Essas pessoas são investidores, que sempre negociaram em posição de vantagem absoluta, comprando empresas falidas. É importante que fique claro: não são acostumados a uma negociação normal. Robert Lighthizer, escolhido como representante de Comércio, é um crítico de acordos comerciais. Diz que tudo precisa ser revisto. Ou seja, a estratégia dessa gente é maximizar tudo para os Estados Unidos.

Qual é a saída, então?
Sem grandes chances de negociação com os Estados Unidos ou com a União Europeia, a melhor estratégia é trabalhar com países da região, que vão começar a ter lacunas comerciais sérias, como o México.

É o fim da globalização?
Não. Passamos 30 anos construindo um mundo mais conectado. Esses laços não se desfazem com um mandato presidencial, com o Brexit. Trump está iniciando um redesenho das relações globais e das relações entre os emergentes. Se a globalização passar a ser chefiada pelos emergentes, ela continua. E não há nenhuma dúvida – zero dúvida – de que a postura de Trump alavanca a China na geopolítica internacional, especialmente entre emergentes. A China já é o maior parceiro do Brasil, tem presença importante na América Latina, imensa influência na Ásia. Esse redesenho já vinha ocorrendo. Com Trump, se acelera.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 22/01/2017.

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