Editor internacional da revista “Slate”, William J. Dobson fala sobre a queda de ditadores no Oriente Médio e sobre a Síria, em entrevista ao “Estadão”

Não está fácil ser um ditador hoje em dia”, conclui William J. Dobson em seu recém-lançado The Dictator’s Learning Curve: Inside the Global Battle for Democracy (A Curva de Aprendizagem do Ditador: Dentro da Batalha Global Pela Democracia). O jornalista e editor internacional da revista Slate decidiu cair na estrada há dois anos para investigar a natureza da ditadura contemporânea. O sonho do repórter é estar no lugar certo no momento certo e Dobson não pode se queixar: 2011 foi o ano da Primavera Árabe e da queda de ditadores como Muamar Kadafi e Hosni Mubarak.

O livro de Dobson é uma turnê internacional pelo autoritarismo que passa pela China, Rússia, Egito e Venezuela. Ele escreve que os problemas dos ditadores contemporâneos começaram aos 25 minutos do 25 de Abril português, em 1974, quando a rádio Renascença de Lisboa começou a tocar a canção senha para a revolução e disparou um efeito dominó de derrubadas de regimes no sul da Europa, África, América Latina e no leste da Ásia. O boom democrático culminou em 2005, quando o mundo tinha triplicado o número de democracias. Algo mudou naquele ano. Até 2010, novos golpes militares na Ásia, populismo na América do Sul e retrocessos em recém-liberadas repúblicas da antiga União Soviética sinalizaram um declínio da liberdade democrática no planeta. O que mudou, argumenta Dobson, não foi o desejo coletivo de liberdade política e econômica. Foi a capacidade de adaptação dos regimes autoritários.

O local do mais recente massacre na Síria já era visto, em poucas horas, por imagens de satélite, em qualquer smartphone. O ditador contemporâneo, lembra Dobson, sabe que não pode garantir sua longevidade à base do genocídio. Por isso, o sírio Bashar Assad é o exemplo usado pelo autor como o pior aluno da classe. Já que a maioria da população síria não é nem a favor nem radicalmente contra o regime, ele poderia ter feito pequenas aberturas, explica Dobson. “Mas Assad seguiu o manual do ditador do século passado. Foi lento na reação, recorreu à violência com uma rapidez e intensidade que não vimos nos outros países afetados pela Primavera Árabe.” O exemplo mais bem acabado de totalitarismo sofisticado é o de Vladimir Putin, que cria até partidos de oposição para encenar sua farsa de democracia constitucional.

No mês do 20º aniversário do massacre na Praça da Paz Celestial, Dobson lembra como era difícil imaginar então que o regime que colocou os tanques na praça estaria tão forte hoje. Os chineses estudaram o declínio da União Soviética, explica o jornalista. E entenderam que o isolacionismo era um tiro no pé, que insistir na doutrinação individual era uma perda de tempo. A barganha chinesa – faça o que quiser na vida pessoal, busque a prosperidade, mas não questione o monopólio do Partido Comunista -, funciona.

Em The Dictator’s Learning Curve, Dobson revela a extraordinária rede de militância que une oposicionistas de todos os cantos do mundo e também o novo negócio da promoção democrática, alimentado por ONG’s e empresários. O autor diz que seu otimismo no fim da viagem não foi provocado pela justiça da causa democrática, mas pela competência e a determinação dos oposicionistas que conheceu: “A verdade é que os protestos de 2011 foram tão potentes porque partiram do povo. No fim das contas, o público faz a diferença. E, para um ditador, não há nada mais aterrorizante”, conclui. A seguir, a conversa de William J. Dobson com o Aliás.

Leia a integra da entrevista:

O Estado de S. Paulo – Como estudioso do autoritarismo moderno, como você vê Vladimir Putin?

William J. Dobson – O domínio exercido por Putin transcende muito o controle econômico. A Constituição russa não é especialmente autoritária, ela tem várias provisões em comum com as Constituições de democracias europeias. Putin não chegou aonde está com endurecimento constitucional. Ele sabe comer as instituições pelas beiradas. Sempre acreditou na importância da fachada. Quando havia um debate sobre a legalidade de Putin se candidatar a um terceiro mandato, o então presidente egípcio, Hosni Mubarak, foi a Moscou e respondeu a um jornalista: “É claro que Putin deve ficar no poder”. Putin não concorreu, cedeu o cargo a Medvedev e hoje está de volta. E onde anda Hosni Mubarak? Putin entende da teatralidade do poder. O Kremlin cria até movimentos de oposição para concorrer contra o regime.

Se você é um ditador moderno, fala a língua dos direitos humanos

Estadão – Um personagem proeminente no capítulo ‘Inimigos do Estado’ é o famoso advogado chinês Pu Zhiqiang, que defende o artista Ai Weiwei. Como você vê dois casos recentes de teste do controle chinês – o expurgo do cacique do Partido Comunista Bo Xilai e a fuga do dissidente cego Chen Guangcheng?

Dobson – Quando você observa a extensão da perseguição do regime chinês à sociedade civil, a nova linha de defesa repousa em personagens como esses advogados. São eles que conduzem os cidadãos para apresentar suas queixas, usando como podem o sistema judiciário. Guangcheng é um homem excepcional que enfrentou muita violência, e seus parentes também. Ficou insustentável para ele. Se tivesse conseguido chegar a um acordo com as autoridades para continuar na China, teria sido incrível. Eu acho que elas estão muito felizes com o dissidente em Nova York. Veem a ausência como o caminho mais rápido para a irrelevância. Já o caso do Bo Xilai está ligado a uma luta interna entre as elites chinesas e essa é uma das maiores fontes de apreensão para o regime, porque não há regras claras de sucessão. Lembre que Deng Xiaoping, antes de morrer, escolheu não um, mas dois sucessores, até Hu Jintao. O atual vice-presidente, Xi Jinping, que deve tomar o lugar de Hu no fim do ano, representa o primeiro teste de passagem de poder não planejada pela geração fundadora do partido. Fatos como Bo Xilai grampeando telefone de chefes do partido mostram que sucessões são o pesadelo de regimes autoritários.

Estadão – A Venezuela de Hugo Chávez é um caso mais difícil de decifrar como regime autoritário por causa das percepções diferentes na América Latina e nos Estados Unidos?

Dobson – Chávez desafia nossa percepção em qualquer parte do mundo, inclusive nos Estados Unidos, onde tem muitos fãs. Ele é muito competente. Seu regime repousa nas eleições. Quando conversei com membros da oposição venezuelana, ninguém acusou Chávez de roubar votos no dia da eleição. Mesmo que haja uma irregularidade, aqui ou ali, todos concordam que a eleição transcorre em relativa normalidade. O problema são os outros 364 dias do ano, quando ele controla a mídia, usa ilegalmente dinheiro do Estado para financiar sua campanha, controla os militares e intimida a oposição. Aqueles discursos que ele faz em cadeia de TV são únicos como instrumento de acesso ao público. Se juntassem os vídeos de todos os discursos que ele fez, ao longo de dez anos, Chávez passaria 54 dias no ar. É fato que o regime venezuelano não usa a violência, como vimos no Egito. O símbolo do sucesso do Hugo Chávez é uma cédula eleitoral.

Estadão – Na Síria, Bashar Assad é o exemplo do mau aluno do aprendizado do ditador?

Dobson – Ele é péssimo aluno. Ninguém quer ser a Síria, o país virou um case study de como não agir. O que esses regimes têm em comum é a necessidade de evitar o dia em que o povo se reúna na praça. E, quando chega esse dia, os ditadores acabam se revelando, como no caso de Assad. Mas ele começou a fracassar bem antes do teatro de horrores a que assistimos hoje. Assad foi lento na reação, recorreu à violência com uma rapidez e intensidade que não vimos nos outros países afetados pela Primavera Árabe. Note que ele não ofereceu nenhum tipo de acomodação. Ele parece estar seguindo o manual do pai, Hafez Assad, responsável por um dos maiores massacres no Oriente Médio, a morte de mais de 20 mil pessoas em Hama. É o manual do ditador do século 20, não funciona. A ironia é que a maioria da população síria não é nem a favor nem radicalmente contra o regime. Ele poderia ter feito aberturas para essa população. Ao contrário, quer usar a oposição como exemplo para intimidar a maioria. Não tem um plano, apenas um regime de terror. Outros países, como a Jordânia e a Malásia, foram bons alunos. Nos primeiros dias dos protestos no Egito, o primeiro-ministro malaio, Najib Razak, disse: “O que aconteceu no Cairo jamais vai acontecer na Malásia”. Recentemente, classificou um protesto de “sinal de sofisticação e maturidade” do país. Vladimir Putin começou acusando a CIA de fomentar protestos e agora se diz “orgulhoso” dos russos que exercitam seus direitos.

Estadão – Você esteve no Egito antes e durante a Primavera Árabe. Esperava que o movimento fosse evoluir para o cenário que temos hoje?

Dobson – Estou muito preocupado com a trajetória do Egito. Antes da Primavera, a dúvida era se o país ia ter como sucessor de Hosni Mubarak um filho dele ou um militar. Quando os protestos da Praça Tahrir explodiram, os militares entraram em campo para “guiar” o processo. Infelizmente, ainda continuamos com a dúvida: é revolução ou sucessão? Se você voltar a pronunciamentos da era Mubarak e ouvir o que os militares estão dizendo hoje, o teor é basicamente o mesmo. Eles não desmantelaram o aparato de segurança, apenas mudaram o nome. Desde a queda de Mubarak, mais de 10 mil cidadãos receberam sentenças em tribunais militares, mas só dois eram soldados que mataram civis na Praça.

Estadão – E mesmo nos países considerados sucessos, como a Tunísia, vemos que surgem outros tipos de questões, como a pressão para as mulheres cobrirem a cabeça.

Dobson – O fato é que várias daquelas ditaduras reforçavam o secularismo. Não estou nada surpreso com esse aspecto da mudança. Mas prefiro viver num país que debate o limite entre o secularismo e a religião. É uma discussão que precisa acontecer entre os cidadãos e não ser suprimida.

Estadão – Você menciona a euforia e o temor das mídias sociais, usadas igualmente por movimentos de oposição e regimes autoritários.

Dobson – Esse é um debate estagnado. Defensores e detratores acabam por se enganar. A tecnologia é uma ferramenta e portanto, neutra. A questão é: quem sabe usar melhor? É claro que, no Egito, as mídias sociais foram um elemento importante da revolução. No livro, eu conto um exemplo do que aconteceu antes, em 2008, quando o mundo não estava prestando atenção. Um pequeno grupo, depois conhecido como 6 de Abril, se organizou em torno do Facebook para convocar uma greve em solidariedade a trabalhadores da indústria têxtil. Foi a primeira vez que os jovens egípcios usaram a tecnologia para divulgar um protesto. O movimento cresceu e atraiu 70 mil pessoas online. O governo se assustou e começou a transmitir, na rede de TV, uma mensagem no pé da tela, mandando os cidadãos não faltarem ao trabalho o dia 6 de abril. Foi tudo que o movimento precisava: propaganda grátis. Quem assistia àquilo e não sabia do protesto ficava não só intrigado, porque trabalhava em todos os outros dias e se irritava com a ordem, como a própria ordem serviu de convocação para mais gente ficar em casa.

Estadão – E no campo das ditaduras eficazes em reprimir pela tecnologia, como fica a China?

Dobson – O uso que a China faz da tecnologia é um exemplo de sofisticação. Veja a maneira como eles conseguem neutralizar a internet. Reconheço que vai ficando cada vez mais difícil. Um dos problemas, que descrevo no livro, com a longevidade de um regime, é o acúmulo de datas simbólicas. Não é só o aniversário recente do massacre na Praça da Paz Celestial. Em março, eles têm o levante tibetano. Em 4 maio, o levante de 1919. Em 6 de julho, a rebelião étnica de Xinjiang. O calendário deles vai ficando lotado de datas que o governo quer que o público ignore. Mas eles são muito bons em separar o clima de oportunidade econômica da repressão política.

Estadão – Como uma pessoa criada numa democracia, depois da sua turnê internacional pelo autoritarismo você adquiriu uma nova apreciação pelo fato de que, para o cidadão comum, a ditadura é um mundo de nuances?

Dobson – Sem dúvida, entender isso é um elemento crucial para sobreviver na área cinzenta entre democracia e autoritarismo. Se você é um ditador moderno, fala a língua dos direitos humanos. Patrocina workshops sobre liberdade. Participa de todas as atividades na ONU. Você faz tudo igualzinho à Alemanha e cabe ao povo descobrir a diferença entre viver nesse país e na Alemanha. Ninguém quer ser um brutamontes como a Coreia do Norte. O caso mais fascinante que vamos acompanhar agora é o de Mianmar. Nenhuma ditadura mudou mais no último ano do que a junta que governa Mianmar. Minha teoria é que eles deram uma olhada no que acontecia no mundo e concluíram que iam sair perdedores.

Estadão – Então Mianmar é o ‘país pôster’ para o aprendizado do ditador?

Dobson – Sim. Mianmar é novo membro do clube da ditadura moderna.

Estadão – Há um personagem no seu livro, pouco conhecido das pessoas comuns, mas famoso entre ditadores: o teórico da resistência não violenta, Gene Sharp, de Boston. Ele inspirou revoluções, da Sérvia ao Egito…

Dobson – Sharp é considerado um dos principais pensadores da não violência, o historiador que explicou a importância do movimento em personagens como Gandhi e Martin Luther King. Nos anos 1980 o trabalho de Sharp atraiu a atenção de um militar americano que estava de licença em Harvard, o coronel Bob Helvey. Ele entendeu que as ideias de Sharp seriam eficazes para derrubar uma ditadura. O último posto de Helvey foi na embaixada americana em Mianmar. Já na reserva, ele começou as palestras que fez aquelas ideias atraírem a atenção da oposição em Mianmar. Mas a obra de Sharp era muito vasta. Foi assim que surgiu a ideia de um manual compacto, de pouco mais de 70 páginas, Da Ditadura à Democracia, que já foi baixado do website dele (www.aeinstein.org) dezenas de milhares de vezes. Está disponível em 26 línguas. Por onde eu passava, encontrava algum ativista que tinha lido Gene Sharp ou citava suas ideias. Sharp explicou a inúmeros movimentos, estratégias de “negar” ou “tomar o poder” de ditadores com campanhas não violentas.

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3 comments

  1. Regina Maria

    Bem sintomático o fato de não te passado pelo Qtar, Arábia Saudita, Iêmen, só para ficar com alguns amiguinhos do império.
    Desses eles não falam. Por que será?

  2. Angelo Frizzo

    As minha perguntas:
    Quando haverá eleições DIRETAS nos EUA?
    O genocídio de mais de 250 mil Líbios( e que continua…) que tinham o MELHOr padrão de vida da África, compensará o LUCRO de algumas multi do petróleo?
    Os dez anos de DEMOCRACIA no Iraque e milhões de mortos, melhorou a condição de vida do Povo Iraquiano?
    Devemos obrigar as freiras católicas a tirar o “capacete”?
    Acha que os EUA deveriam acabar com os campos de concentração(guantanamo, abu-grabi, Gaza, e outras dezenas pelo mundo)?
    Um reporter “decente” pode ter “lado”?

  3. Angelo Frizzo

    Não podemos esperar mesmo que ele fale dos genocídios perpetrados só nos últimos dez anos ecustarama vida de mai de 10 milhões de pessoas. Iraque, Afaeganistão,Palestina, Líbia e agora iniciando mais um na Síria.
    O pioré que dizem que estão implantando a democracia.Parece piada, mas …ele que são a imprensa “democrática” no Brasil.
    Quem destroi tres torres(falam duas) lotadas de seres humanos, para JUSTIFICAR genocídios e invasões, não tem direito de nos achar desinformados.
    Hora dos EUA elegerem seres humanos NORMAIS para Governa-los, com eleições DIRETAS.