Sábado, 10 de dezembro de 2016
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“Uma das razões para ler é tornar a sociedade justa”

Em um único ano de trabalho, o britânico Jonathan Douglas conseguiu levar 2,3 milhões de novos leitores a se cadastrar nas bibliotecas do Reino Unido. O diretor da National Literacy Trust, organização britânica dedicada a projetos e campanhas de alfabetização e incentivo à leitura, precisou de parcerias com clubes de futebol, autoescolas e redes de fast food para disseminar o hábito de ler. Para ele, a leitura é o caminho para formar uma sociedade mais igualitária.

No Brasil para participar de evento do British Council sobre avaliação de projetos de leitura e o primeiro Encontro Internacional Por um Brasil Leitor, Douglas diz se inspirar em projetos brasileiros e aponta alguns caminhos que podem ajudar a pensar alternativas para aumentar o interesse por livros no país.

Época – No Brasil ainda se lê pouco. Segundo um estudo deste ano, sete em cada dez brasileiros não leram um livro sequer em 2014 e o interesse na leitura tem diminuído. Por que é importante continuar valorizando os livros?

Jonathan Douglas – O que você quer dizer por livro? Por que livros tradicionais e digitais são diferentes. Alguns dos maiores fenômenos de leitura dos últimos anos foram grandes vendas em livros digitais, já que você pode baixá-los rapidamente, carregar para onde quiser e também ninguém precisa saber o que você está lendo. “50 tons de cinza” foi um grande sucesso, pois as pessoas podiam ler em seus tablets e ninguém sabia que estava lendo um livro de sacanagem. Nos últimos três anos, o número de crianças lendo e-books cresceu de 5% para 20%, no Reino Unido. O ato de ler está mudando radicalmente. Por isso, pessoas que dizem não gostar de ler podem tentar outras maneiras. Tente ler no seu computador, no seu smartphone.

Além disso, a gente sabe que ler ajuda a sociedade como um todo. O Reino Unido tem uma das sociedades mais desiguais da Europa e sabemos que a pobreza está aumentando novamente, que a diferença na expectativa de vida é grande e um dos principais fatores que separam ricos e pobres são os hábitos de leitura. Então, para mim, uma das principais razões para ler é tornar a sociedade mais justa.

Meu primeiro emprego foi como bibliotecário e eu cuidava de duas bibliotecas vizinhas em Londres. Uma, estava em uma das áreas mais ricas da cidade, a outra era uma das mais pobres. As duas eram separadas só por uma rodovia, mas tinham os maiores e menores índices de alfabetização da cidade, respectivamente, e a expectativa de vida variava 19 anos entre os dois bairros. Sabemos que se fizermos mais crianças lerem, elas terão melhor desempenho escolar e conseguiremos diminuir a distância entre as classes sociais. Nós sabemos que famílias mais pobres pensam que a habilidades de leitura são menos importante do que famílias ricas. Então, infelizmente, leitura não é valorizada da mesma maneira na sociedade. A ironia é que se pudéssemos mostrar a importância desse aprendizado para as comunidades mais pobres, talvez as habilidades de comunicação aumentassem.

E, pessoalmente, acho que ler é importante porque é divertido.

Época – Você mencionou os livros digitais. É importante estimular a leitura nos novos meios?

Douglas – Ler e escrever são habilidades para comunicação. Se você quer encorajar essas habilidades, que vão ajudar crianças e adultos a se desenvolver, eles precisam ter contato com todos os tipos de texto. Não basta ter paixão por livros tradicionais de papel. É preciso se apaixonar pela literatura em novos formatos, por sites de veículos de informação, por blogs.

A verdade é que no mercado de trabalho atual, empregadores buscam habilidades de comunicação, que envolvem ler e escrever, mas também habilidade de compreender formas de comunicação tecnológica. Em termos de internet, a informação não está simplesmente disponível como em uma revista, mas é preciso ter aptidão para saber encontrá-la. Hoje é preciso mais conhecimento para poder ler o mundo e descrevê-lo. Os jovens precisam de mais capacidades.

Época – Quais lições o Brasil pode aprender com a experiência do Reino Unido, quando falamos do estímulo à leitura?

Douglas – A verdade triste é que o Reino Unido também tem problemas de leitura. Uma em seis pessoas tem problemas na capacidade de compreender textos. Então, o ponto de visitar o Brasil não é apresentar nenhuma solução, mas aprender com a realidade brasileira e dividirmos experiências. Nas três vezes em que estive no país, vi iniciativas muito extraordinárias, como a Flupp (Festa Literária das Periferias) e o trabalho do Sesc (Serviço Social do Comércio). Não cabe a mim só dar um monte de ideias, mas também pensar como eu posso levar conhecimento das coisas fantásticas que acontecem aqui, já que o Reino Unido também tem problemas.

Sobre a nossa experiência, minha ONG trabalha exclusivamente em aumentar os índices de leitura e diminuir o de analfabetismo. Tentamos fazer isso de diversas maneiras e o modo mais eficiente é ao fazer parcerias que não foram consideradas antes. Por exemplo: como fazer meninos que amam futebol começar a ler quando eles não se interessam muito por Harry Potter? Nós trabalhamos com a Premier League (campeonato da primeira divisão britânica) e propusemos uma parceria entre os times de futebol e as escolas da região. Todo ano, organizamos um dia de visita ao estádio e encontro com autores indicados pelos jogadores ou que escrevam livros sobre o esporte. Além disso, disponibilizamos vídeos dos esportistas contando sobre sua relação com a leitura e seus títulos favoritos.

Muitas famílias não frequentam bibliotecas, não colocam os filhos em creches, mas frequentam o Mc Donald’s, por isso, criamos outro projeto com o apoio da rede de restaurantes em que distribuímos 24 milhões de livros para pessoas que frequentam o a rede de fast food. Então, a questão é pensar em parcerias que vão atingir e cativar o público que normalmente não tem o costume de ler. O que descobrimos é que baixas taxas de alfabetização e de leitura podem ser mudadas, mas precisam de ações inovadoras e cativantes. Não adianta fazer mais do mesmo.

Época – Vocês criaram um conceito de cidades leitoras. Como funciona esse projeto?

Douglas – Trabalhamos com três cidades em que os índices de leitura e alfabetização eram baixos – Middlesbrough, Bradford e Peterborough – para que, mesmo com as dificuldades de alfabetização, a população toda fique interessada em ler. Nelas, trabalhamos com enfermeiras e parteiras para presentear recém-nascidos com livros e os pais ouvem como é bom estimular a leitura. Em Middlesbrough, no norte do país, criamos estantes de troca de livros dentro de ônibus. Todos os jornais locais fazem competições semanais de leitura e, nas estações de rádio, pautamos histórias sobre livros. Além disso, o time local permite que durante os intervalos das partidas de futebol, sejam distribuídos livros. Como resultado, mais crianças estão lendo diariamente, mais pais afirmam ler com seus filhos, as lojas de livros estão vendendo mais livros, as bibliotecas estão emprestando mais.

Época – Você fala da participação de toda a comunidade para o aumento dos índices de leitura. No Brasil, o ato de ler ainda está muito associado aos estudos e a figura que mais influencia a ler é o professor. As famílias deveriam avançar nessa questão?

Douglas – Ler é um ato cultural e, portanto, é ensinado. Há dois sentidos para isso: o ensino de como ler as palavras, qual o som de duas letras juntas, e os professores são absolutamente responsáveis por isso, mas há outro lado que é o amor pela língua, pela literatura e o apego emocional às histórias e, em geral, isso é ensinado pela família. Precisamos que professores e famílias trabalhem juntos, porque se as crianças não amam ler ou não sabem ler, você tem um grande problema.

A verdade é que se as pessoas não sabem ler e não leem, o custo é econômico, já que o desempenho acadêmico e no mercado de trabalho é pior. A falta de leitura também é social, já que impacta a democracia, pois menos pessoas são menos ouvidas, e também há um custo pessoal, pelas pessoas que têm dificuldade em se expressar bem.

Minha sugestão é que todos que puderem se envolver, se envolvam. Os professores devem ser os melhores para ensinar a ler, mas as famílias também têm de estimular a leitura desde o berço, empresas devem entender que seus funcionários precisam de tempo para acompanhar o desempenho escolar. Não pode ser a responsabilidade de só uma pessoa: precisamos de professores fazendo bem o seu trabalho, mas também precisamos de todo mundo ajudando a criar uma sociedade melhor.

Época – Fala-se muito que o adulto deve ser um leitor para servir como exemplo para crianças, no entanto, muitos não conseguem compreender bem o texto. Em um país em que 13 milhões são considerados analfabetos funcionais, deveriam haver programas voltados para adultos?

Douglas – No Reino Unido o problema, em geral, não é sobre a oferta de oportunidades para adultos aprenderem, mas de conseguirmos reunir alunos interessados em aprimorar sua capacidade de leitura. Muitas bibliotecas e universidades oferecem cursos gratuitos de literatura, mas a procura por esses cursos é menor em áreas em comunidades com maiores índices de analfabetismo funcional. Então o desafio não é simplesmente oferecer mais cursos, mas fazer com que as pessoas se interessem por aprender mais.

Dois projetos são muito interessantes neste sentido. No primeiro, nós identificamos que muitas pessoas com baixa escolaridade queriam tirar carteira de motorista, mas não conseguiam passar nas provas teóricas por conta de sua dificuldade com a leitura. Nós passamos a oferecer cursos em parceria com autoescolas para atrair jovens que queriam dirigir e acabavam, consequentemente, aprimorando a leitura.

Em outra experiência, nós trabalhamos em uma região com muitas minas de carvão e tínhamos muita dificuldade em atrair os mineiros para melhorar sua capacidade de leitura. Então, começamos a oferecer cursos de manutenção de motocicletas e inseríamos conteúdo sobre leitura durante as aulas. E tivemos fila de espera para os cursos. A principal coisa que aprendi foi que para promover alfabetização de adultos, você precisa tornar relevante para pessoas que não acham que ler e escrever é para eles.

Época – Para crianças, há uma grande oferta de livros e atividades para treinar a capacidade de leitura, falta também material especializado para estimular a leitura em adultos?

Douglas – No Reino Unido também existe um projeto que se chama Quick Reads (ou leituras rápidas) em que grandes autores escrevem histórias curtas de forma acessível, e são pensados para adultos que têm escolaridade, mas precisam aprimorar e praticar para melhorar sua capacidade de leitura. Mas os livros não são rotulados “estes são livros para quem não lê bem”, mas são apresentados como um livro para pessoas ocupadas que precisam ler rápido. Por isso, não estigmatizam. E, para ser sincero, todos nós não têm tanto tempo para ler como gostaria. Eu acho que é um desafio para as editoras publicar livros que pessoas com menor nível de compreensão possam ler, mas também que pessoas ocupadas possam ler em um pequeno espaço de tempo.

Época – É preciso ficar esperando que o governo tome providências para aumentar os índices de leitura no país?

Douglas – No Reino Unido nós tivemos uma grande mudança. Há dez anos, o governo deu milhões de libras para fazer com que a nação lesse mais e bancava grandes campanhas de marketing, mas desde então a economia colapsou e o investimento não está mais lá. O governo também defende que não é necessariamente o trabalho deles fazer com que a população leia. O que está acontecendo hoje é que ONGs e a sociedade civil estão trabalhando com empresas, bibliotecas e escolas para promover a leitura, em vez de esperar que o governo tome a liderança do processo. Sempre há espaço para apoio governamental, mas nós aprendemos na última década que podemos fazer coisas extraordinárias, mesmo sem o suporte do governo.

Época – E o que leva empresas a investir em projetos de leitura?

Douglas – Um desenvolvimento econômico significativo depende de uma sociedade com mão de obra qualificada. Quanto mais bem preparada for a força de trabalho, mais forte será a economia. E empresas percebem que seus mercados de trabalho dependem de uma maior capacidade de leitura dos funcionários e da sociedade. Alfabetização é chave para a estabilidade econômica de um país, mas também uma boa maneira de empresas se aproximarem das famílias, porque leitura é uma ótima atividade familiar. Então, empresas usam esse mecanismo para demonstrar respeito aos consumidores.

Fontes: Época, 16/6/2015

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