A obsessão antiamericana

Quando a França recusou apoio aos Estados Unidos, na recente guerra no Iraque, alguns americanos retaliaram de forma inusitada: sugeriram que as batatas fritas, conhecidas entre eles como french fries (fritas francesas), fossem rebatizadas como freedom fries (fritas da liberdade). Esse protesto provocou risos de escárnio, e a França até zombou da suposta ignorância ianque – a fritura de batatas em palitos seria uma invenção dos belgas. Não se conhece a opinião do ensaísta francês Jean-François Revel, de 79 anos, a respeito do incidente. Mas é improvável que ela coincida com a de seus conterrâneos. Afinal de contas, essa demonstração pueril de mau humor seria plenamente desculpável diante das toneladas de bile, falsidades e má-fé vertidas regularmente contra os Estados Unidos, e refutadas por Revel em sua nova obra, “A Obsessão Antiamericana” (UniverCidade, 302 páginas). O autor, é bom que se diga, ocupa-se do antiamericanismo como fenômeno global e não apenas francês – o que só aumenta a importância de seu livro vigoroso.

Revel distingue a crítica legítima aos Estados Unidos do antiamericanismo. Sob esta última bandeira reúnem-se fanáticos religiosos, intelectuais “refinados”, ativistas de esquerda e políticos de extrema direita, todos movidos por uma “cegueira passional”, pela “necessidade psicológica profunda” de encontrar um bode expiatório para fracassos políticos, econômicos e sociais dos mais diversos tipos. Revel não usa de meias palavras para denunciá-los – bem como a seus argumentos, calcados ora na ignorância, ora em contradições. Ele faz um lembrete à França e a seus vizinhos: a emergência dos Estados Unidos como superpotência foi conseqüência, e não causa, de males que os próprios europeus infligiram a si mesmos e ao mundo. Desse ponto de vista, as tão criticadas intervenções militares americanas seriam em boa parte fruto da omissão, da leniência e da hipocrisia de outras potências – que aceitam prostrar-se diante de tiranos como Saddam Hussein.

Segundo o autor, a velha querela entre liberais e socialistas é uma das fontes do pensamento antiamericano. “A função principal do antiamericanismo é denegrir o liberalismo na sua encarnação suprema. Apresentar os Estados Unidos como sociedade repressiva, injusta, racista, quase fascista, seria um meio de clamar: vede no que deu a adoção do liberalismo!” Os movimentos contra a globalização nada mais fazem que reciclar essa idéia. Contra eles, Revel demonstra que a globalização tem sido fonte de enriquecimento inclusive para os países mais pobres, ironiza o medo histérico da colonização cultural (“uma cultura entra em decadência no momento em que se exalta em denegrir as outras”) e ataca a maneira como preocupações ecológicas legítimas se confundem com “velharias marxistas coloridas de verde”. Redigido sem empolamento, o livro de Revel é valioso por suas constatações e também pelo alerta com que se encerra. O tiro do antiamericanismo só pode sair pela culatra, diz ele. Ao escolherem o caminho errado, os críticos dos Estados Unidos substituem “a ação pela animosidade, e a análise pela paixão; estão condenados à impotência e, por efeito de compensação, alimentam a superpotência americana”.

Fonte: revista “VEJA

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