Do bom selvagem ao bom revolucionário

A história da América Latina é, até hoje, a história de um fracasso. A afirmação está nas primeiras páginas do livro Do bom selvagem ao bom revolucionário (UNB, 1981) do diplomata e jornalista venezuelano Carlos Rangel. A obra foi originalmente publicada em 1974 mas foi, infelizmente, tornada ainda mais atual pela ascensão dos governos neopopulistas da América Latina, notadamente o do também venezuelano Hugo Chávez.

Em menos de 300 páginas, Rangel traça as características da nossa formação, de personagens políticos importantes, discute o marxismo e a igreja na América Latina, e ainda diz incômodas verdades sobre nós. Abrange em poucas páginas um longo período histórico sem recorrer a generalizações nem a conclusões rasteiras.

É por demais lembrado que os colonizadores anglo-saxões buscaram no novo continente terra e liberdade, enquanto o hispano ia em busca de ouro e escravos. Um foi para ficar, outro para saquear e voltar à corte. A sociedade latino-americana é formada, então, por conquistadores e mulheres violadas. “O mito do Bom Selvagem nos concerne pessoalmente; é, ao mesmo tempo, nosso orgulho e nossa vergonha.” Esse bom selvagem vira o bom revolucionário, personificado em Che Guevara e Fidel Castro, os guerreiros das selvas, sem a contaminação stalinista, que vão redimir o povo subjugado por uma ditadura.

Claro que isso é uma construção mitológica, sem base real. Mas a sociedade latino-americana aprecia a mentira. Em vez de enfrentar seus próprios erros, construímos (com a ajuda da tese leninista do imperialismo) a idéia de que somos pobres porque eles (principalmente os Estados Unidos) são ricos. O corolário é que precisaríamos romper essa “dependência” e instaurar governos revolucionários.

Os defensores desta forma esquemática de interpretação da riqueza americana fecham os olhos para o fato de que as características notáveis do povo norte-americano, de sua inventividade e as suas bases de crescimento (como a inovação) não se deram no século XX, mas antes. São verdadeiramente notáveis as passagens, citadas por Rangel, do diário de Francisco de Miranda, um venezuelano que realizou a proeza de lutar em três grandes revoluções: a independência dos EUA, a Revolução Francesa e a emancipação hispano-americana. Pois em 1783 ele chega aos EUA e descreve uma sociedade que valoriza a lei, que borbulha de invenções técnicas e que era conduzida ao desenvolvimento pelo espírito de liberdade. “Estas simples verdades sobre a origem da prosperidade e do poder dos EUA, antes de toda relação com a América Latina, foram hoje substituídas por esfarrapadas explicações sobre como o auge norte-americano estava (?) em relação direta com o atraso do resto do hemisfério, cuja exploração pelos ianques seria a causa principal, e até única, tanto da riqueza norte-americana como da pobreza latino-americana, do êxito deles e do nosso fracasso. E se alguém lê essa parte do diário de Miranda deve ser em segredo, porque ninguém o cita, ninguém o comenta. É incômodo, quando se vive de mitos, dar de cara com a verdade, dita de forma tão simples, tão clara, tão irrefutável. E para cúmulo, por um dos autênticos heróis e um dos maiores homens da América Espanhola”, completa Rangel.

A obra aborda ainda as principais formas de governo que existiam no Continente, indo desde o modelo brasileiro nacional-desenvolvimentista militar, o caudilhismo do PRI mexicano, o militarismo de esquerda do Peru à catástrofe do governo Allende, no Chile.

Corretamente, Jean-François Revel conclui da leitura do livro de Rangel (que prefacia) de que o subdesenvolvimento desta parte do continente é político, antes de ser econômico. Não há escassez de recursos naturais nem mercado consumidor (a proximidade com os Estados Unidos ajudaria muito nisso), mas uma falta de ética do trabalho, uma mistificação sobre as próprias qualidades e origens e uma inveja que se transformou em ódio ao sucesso americano.

O resultado é que, 34 anos depois da edição deste livro, novos governos na região insistem que a democracia representativa não é a adequada para a América Latina, que o poder deve ser concentrado no presidente e que tampouco a economia de mercado serviria aos interesses da região. Beneficiados com alto preço das commodities, principalmente o petróleo, os países que voltaram a defender tais políticas suicidas conseguem parciais êxitos econômicos na superfície (redução de dívida externa, crescimento do PIB). Mas, na parte estrutural, reduzem sua industrialização, aprofundam a dependência do principal produto de exportação, reduzem a confiança nas regras do jogo e inibem o investimento privado. Quando a boa maré do crescimento acelerado mundial virar, os resultados para esses países poderão ser catastróficos.

“Tradicionalmente, temos sido países explorados. Rapidamente nem isso seremos: não será necessário explorar-nos, porque a tecnologia terá podido – em grande medida já o pode – substituir industrialmente nossas ofertas monoprodutivas. Seremos então um vasto continente de mendigos?”, perguntava Rangel.

Sua obra faz lembrar uma frase de “1984”, de George Orwell, que apontava que “the best books are those that tell you what you know already” (“os melhores livros são aqueles que dizem o que você já sabe”). Sim, qualquer um pressente que tudo o que está escrito é verdade, que não surpreende a alma latina, mas é notável como Carlos Rangel interrelaciona tais aspectos da nossa formação, nossos modelos políticos e os resultados que são continuamente obtidos.

Em tempo, há de se registrar que o fracasso na região não é completo. Há um país que cresce, respeita as instituições, abre-se ao mercado exterior e vem batendo recordes em índices internacionais de liberdade política, econômica e desenvolvimento. É o Chile. O que infelizmente, não é copiado como modelo pelos demais países. Talvez porque, como lembra Rangel, “A América Latina é constantemente tentada a definir sua independência e unidade por meio de oposição aos EUA”, e, na mentalidade latino-americana, só o confronto, mesmo que produza miséria, é exemplar.

Fonte: OrdemLivre.org

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