Saving capitalism from the capitalists

“As pessoas do mesmo ramo raramente se reúnem, mesmo para o lazer e a confraternização, sem que a conversa acabe numa conspiração contra o público ou em alguma manobra para aumentar os preços.” (Adam Smith)

Quando falamos em capitalismo, automaticamente vem à mente de muita gente a imagem dos grandes e poderosos empresários, que controlam amplo poder político em suas mãos. No entanto, este tipo de “capitalismo” não se parece nada com o capitalismo de livre mercado, defendido pelos liberais. Ele está muito mais para um “capitalismo de relacionamentos”, onde o setor público e o setor privado desfrutam de uma ligação simbiótica. Para ajudar a salvar o verdadeiro capitalismo destes “capitalistas”, os economistas da Universidade de Chicago, Raghuram Rajam e Luigi Zingales, escreveram o livro Salvando o Capitalismo dos Capitalistas, uma defesa bastante pragmática do livre mercado como meio para se criar mais riqueza e ampliar as oportunidades. Para os autores, o maior inimigo do capitalismo não são os exaltados socialistas e sindicalistas, mas estes que se dizem capitalistas enquanto conspiram contra a livre concorrência.

Os economistas deixam claro que o sistema de livre mercado é a forma mais eficaz de organizar a produção e distribuição dos bens e serviços na sociedade. São fervorosos defensores do mercado financeiro também, como uma “ferramenta extraordinariamente eficaz para difundir oportunidades e combater a pobreza”. Um mercado financeiro sadio é fundamental para manter vivo o processo da “destruição criadora”. Os autores afirmam: “Sem mercados financeiros vibrantes, inovadores, a economia inevitavelmente se petrificaria e declinaria”. Afinal de contas, muitos possuem boas idéias, mas não conseguem acesso a financiamentos. A falta de recursos para financiar as idéias é o principal empecilho no caminho da riqueza, e eis justamente o que um mercado financeiro sofisticado atende. O desenvolvimento do mercado financeiro difunde a disponibilidade de capital, aumentando a força do ser humano em relação aos donos de capital. A intensa competição entre investidores de risco nos Estados Unidos é o maior aliado dos empreendedores, que costumam encontrar capital disponível para financiar seus projetos inovadores.

Exatamente por isso o desenvolvimento do mercado financeiro encontra fortes barreiras naqueles que pretendem preservar o status quo. Os já estabelecidos preferem manter o poder, naturalmente. E eles se sentem ameaçados pelos mercados livres, que garantem maior acesso aos demais, nivelando as oportunidades. Basta pensar o que Michael Dell, um sujeito com uma boa idéia que abandonou a faculdade, representou para uma grande firma já estabelecida como a IBM. Mas, como lembram os autores, “para que os livres mercados competitivos possam se desenvolver, o primeiro passo é que o governo respeite e assegure os direitos de propriedade até dos cidadãos mais fracos ou indefesos”. Historicamente, a maior ameaça vem do próprio governo e sua voracidade.

Quando os grandes privilegiados com o status quo se unem ao governo, as resistências ao desenvolvimento do livre mercado ficam fortes demais. A única esperança nesse caso vem de fora. Logo, “o comércio exterior e os fluxos transnacionais de capital expõem as empresas estabelecidas num país a uma vigorosa concorrência vinda de fora”. Os países são então forçados a fazer o necessário para tornar a economia mais competitiva. De modo geral, isso pode implicar um fortalecimento das instituições necessárias para os mercados internos.

Um risco sempre presente para o livre mercado está nos perdedores com a concorrência. Esses destituídos encontram incentivos para se organizar e obter proteção do sistema político. Suas demandas costumam superar os subsídios, voltando-se contra o próprio sistema econômico que os levou a tal situação. Essas demandas coincidem com os desejos dos capitalistas estabelecidos. “Quando os despossuídos se organizam espontaneamente”, os autores lembram, “os políticos profissionais e os partidos tentam cooptar essa energia para seus próprios objetivos eleitorais”. Segundo os autores, “para impedir que a política trabalhe contra o mercado, é preciso auxiliar os que perdem na concorrência, não para continuar uma batalha perdida mas para minorar sua dor e prepará-los para um futuro melhor”. Ou seja, uma rede básica de proteção, de preferência permitindo o investimento na adaptação da nova realidade, representa uma importante medida para a sobrevivência do capitalismo. O importante é preservar o dinamismo da livre concorrência e sua conseqüente “destruição criadora”.

Para os autores do livro, o governo tem um papel importante a desempenhar, auxiliando na construção da infra-estrutura necessária para o bom funcionamento do livre mercado. Eles entendem os riscos da captura do governo por parte dos poderes estabelecidos, e defendem mecanismos descentralizadores para mitigar este risco. No entanto, afirmam que “a falta de regulamentação pode ser uma proteção e uma barreira à entrada tanto quanto o excesso de proteção ou uma proibição explícita à entrada!”. Um governo que determina certas regras básicas de transparência, por exemplo, pode ajudar na preservação do livre mercado.

O maravilhoso mecanismo de livre mercado se depara com poderosos inimigos, dentre eles justamente aqueles que afirmam defender o capitalismo enquanto buscam, através do governo, barrar a concorrência. O capitalismo liberal cede lugar ao “capitalismo de relações” nesses casos, com uma espécie de “concorrência administrada”. Este sistema não permite nem substanciais inovações nem a necessária destruição. Além disso, não conta com a imparcialidade na alocação de recursos, já que as regras para distribuir prêmios ou castigos se tornam totalmente arbitrárias. Os recursos e recompensas acabam não com os mais eficientes, mas com os poderosos interesses estabelecidos, os “amigos do rei”. A retórica do interesse público muitas vezes oculta esse auto-interesse das ações contra o mercado.

Para os autores, o tema principal do livro “é que o livre mercado, talvez a instituição econômica mais benéfica que a humanidade conheceu, repousa sobre alicerces frágeis”. Faz-se necessário fortalecer tais alicerces. Como principal receita, temos a lembrança de que “a maneira mais efetiva de reduzir o poder dos interesses estabelecidos no que se refere a influências sobre a legislação é manter os mercados internos abertos à concorrência internacional”. Abraçando a globalização e mantendo um mercado financeiro bastante aberto, estaremos forçando uma busca pela eficiência e, com isso, salvando o capitalismo dos “capitalistas”, muitas vezes os maiores inimigos do livre mercado.

Por Rodrigo Constantino

RELACIONADOS

Deixe um comentário

1 comment

  1. Miqueias

    O livro parece ser muito interessante.
    Existe um edição do livro em Português?