Sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado

“Sistema Internacional com hegemonia das democracias de mercado”

Autores: Eduardo Viola e Héctor Leis
Para este livro, veja a resenha de Paulo Roberto de Almeida

“Brasil e Argentina: reincidentes no erro?”

Os autores simbolizam a história dramática dos dois maiores países da América do Sul: vindos da esquerda e da luta pelo socialismo, se naturalizaram no país que os abrigou de uma terrível ditadura. Estão, portanto, preparados para analisar a trajetória do Brasil e da Argentina no contexto das democracias de mercado. A descoberta de realidades políticas similares, ainda que sob roupagens distintas, e o comparatismo inevitável que esse tipo de situação cria, permitiu-lhes constatar como os mesmos diagnósticos equivocados feitos por lideranças políticas, lá e aqui, redundam em perda de oportunidades de inserção no mundo globalizado da atualidade.

Roberto Campos costumava dizer que o Brasil é um país que não perde a oportunidade de perder oportunidades. Nessa competição, a Argentina ganha do Brasil: sua trajetória em direção à decadência foi mais profunda. No caso do Brasil, pode-se aplicar o dito de Mário de Andrade: “progredir, progredimos um tiquinho, que o progresso também é uma fatalidade…” O fato é que, a despeito de uma história singular, que corre em trilhas próprias, Brasil e Argentina reproduzem equívocos similares de políticas públicas cometidos por diferentes regimes políticos ao longo do século XX: a maior parte dos problemas deriva de erros de gestão macroeconômica e de escolhas infelizes das elites nas respostas aos desafios internos e externos.

O livro discute as novas condições da economia global e os padrões atuais de organização política, que os autores chamam de “hegemonia das democracias de mercado”. Eles constatam como são anacrônicas as demandas de militantes de causas equivocadas, com slogans retirados de um já mundo desaparecido nas dobras da história – como os conceitos de “dependência” ou de “antiimperialismo” – e que insistem em defender causas que não são mais de vanguarda, sequer progressistas. A oposição a reformas que permitiriam inserir mais rapidamente os países da América Latina nas correntes dinâmicas da globalização – reformas política, previdenciária, trabalhista, tributária, sindical ou educacional – não é conservadora; ela é reacionária, em vista dos imensos problemas acumulados em áreas que têm a ver com as perspectivas de emprego, renda e oportunidades de ascensão social de imensas massas ainda hoje excluídas de qualquer possibilidade de inserção produtiva.

Os autores confessam sua decepção com os intelectuais que exibem um agudo senso de anticapitalismo, o que os faz cúmplices objetivos das piores barbaridades cometidas contra os direitos humanos e a democracia, como em certa ilha, por exemplo. Na América Latina, o anticapitalismo visceral dos intelectuais impede a modernização econômica e a torna uma espécie de “Prometeu acorrentado”: os grilhões que a prendem ao passado mercantilista e patrimonialista não são apenas materiais; eles são, sobretudo, mentais. A insistência em velhas soluções estatizantes, a repetição dos erros do passado, a tendência em encontrar bodes expiatórios no exterior e a alimentar teorias conspiratórias sobre as razões do fracasso local são tão mais surpreendentes quando estão disponíveis boas análises sobre as razões da trajetória errática e da miopia das elites. Este livro constitui um bom diagnóstico e um excelente antídoto intelectual.

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