Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
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“Os negócios que não se reinventam, morrem”, diz Marcelo Pimenta

O currículo de Marcelo Pimenta é extenso, assim como sua experiência. Ele é jornalista, empreendedor, palestrante e um dos pioneiros no empreendedorismo digital brasileiro (criou sua primeira empresa de internet em 1996). Blogueiro do Estadão PME, professor de inovação na pós-graduação da ESPM, representa o Brasil no Conselho Internacional Acadêmico NetExplo, ligado à Unesco, e é o criador dos sites Mentalidades e do Laboratorium.

Com esse largo conhecimento, Pimenta fala com desenvoltura sobre o papel do empreendedorismo no Brasil e explica por que ainda não avançamos muito como em outros países. “Pagamos o preço de sermos uma nação que começou muito tarde a construir um capital intelectual sobre negócios, por isso, ainda muito limitado. Mas estamos trabalhando para rever essa situação e espero que as próximas gerações encontrem um ambiente mais propício”.

Crises, como a que estamos passando agora, não só servem para mostrar novas oportunidades, mas para redimensionar novas maneiras de consumirmos um produto existente. “A crise é o momento em que se buscam novas opções. Se a empresa não conseguir se renovar para oferecer novidades, vantagens e benefícios, estará dando a chance para que um concorrente ofereça sua oferta. A crise é a oportunidade para que fornecedor/cliente repensem sua relação”, explica.

Aliás, quando as empresas se acomodam e deixam de inovar, elas podem simplesmente desaparecer, segundo o especialista. Pimenta cita alguns casos de empresas que perderam “o bonde dos negócios”, como Mesbla, Mappin e a Atari. Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida ao “Estadão PME”.

Qual o panorama do empreendedorismo hoje no Brasil? Que estágio nos encontramos diante dos principais países empreendedores?
O tema empreendedorismo vem ganhando destaque na mídia, em algumas universidades, muitos eventos de apoio e incentivo a novos empreendedores vêm sendo organizados. Mas estamos ainda numa fase muito jovem, como é nosso país. Em 1600 nós recém-tínhamos sido “descobertos”, os holandeses e ingleses já tinham a Companhia das Índias, exportavam e importavam produtos da África, da China e de diferentes regiões da Europa. Já eram negociantes, empreendedores. Aqui tivemos a elite portuguesa, que via o Brasil como colônia. Se a universidade de Coimbra é de 1290, a primeira universidade brasileira é de 1912 (pouco mais de 100 anos). Os filhos dos detentores de capital no Brasil tinham acesso e iam estudar na Europa. Além disso, fomos dos países que por mais tempo adotamos o sistema escravagista, que repercute até hoje. Enfim, pagamos o preço de sermos uma nação que começou muito tarde a construir um capital intelectual sobre negócios, por isso, ainda muito limitado. Mas estamos trabalhando para rever essa situação e espero que as próximas gerações encontrem um ambiente mais propício.

Quais as soluções mais eficazes que um empreendedor deve buscar em momentos de crise aguda? Cite alguns exemplos práticos. 
Por mais que seja difícil para quem sofre os efeitos da crise, ela deve ser vista como uma oportunidade. A crise do frio gerou a descoberta do fogo. A crise das distâncias promoveu a construção dos barcos e estradas. A pressa exigiu que se inventasse o avião e os jatos. A necessidade de um padrão único de comércio fez com que se criasse a moeda e os bancos. A demanda por conforto gerou hotéis, lavanderias, assistências técnicas. A crise de encontrar as informações propiciou o Google, a saudade e a vaidade fizeram surgir o Facebook, a necessidade de backup de arquivos fez surgir o Dropbox e assim vamos vivendo, empreendendo e inovando sem parar. Como Charles Darwin ensinou, nossa evolução é protagonizada por aqueles que mais têm capacidade de se adaptar. Inovar é o que nos faz sobreviver e é a resposta para todas as crises. A crise é o momento em que se buscam novas opções. Se a empresa não conseguir se renovar para oferecer novidades, vantagens e benefícios, estará dando a chance para que um concorrente ofereça sua oferta. A crise é a oportunidade para que fornecedor/cliente repensem sua relação. A crise está fazendo com que os consumidores repensem os custos da televisão paga tradicional (cabo e satélite) e optem cada dia mais pelo Netflix. A crise está fazendo com que os “gourmets” comecem a abrir suas casas para jantares compartilhados. A crise vem fazendo com que os cidadãos compartilhem seus carros oferecendo caronas. A crise vem permitindo que startups tenham a chance de oferecer produtos e serviços inovadores como substitutos ao jeito tradicional de resolver problemas. As cooperativas de táxi ficaram na zona de conforto por quarenta anos, para que em cinco anos os aplicativos reorganizassem o mercado, dando a chance para o surgimento de modelos como o Uber. Sim, as cooperativas de táxi estão em crise, pois seu modelo de negócio foi colocado em cheque. É preciso entender a crise como momento para repensar sua proposta de valor, seus segmentos de clientes, fornecedores, canais, política de preços, gerenciamento de pessoas. Não estou afirmando que é fácil, mas é preciso ser feito. Os negócios que não se reinventam nas crises morrem e a Olivetti, a Atari, a Kodak, a Blockbuster, a Mesbla, o Mappin, as Lojas Manlec (quem é do sul vai lembrar!) estão aí para comprovar isso.

Qual o país você destaca hoje no empreendedorismo que deve servir de modelo para outros países? O que ele faz que nós não fazemos?
Israel. Para ter uma ideia, Israel tem uma área menor que o estado de Sergipe. No entanto, o país tem o segundo maior número de empresas listadas na Nasdaq (depois dos Estados Unidos). Todo o problema é enfrentando com uma solução que visa gerar valor tanto para o cliente (que se beneficia do produto) como para o acionista que financia a inovação. Eles têm problema de falta de água. Por isso, detém a maior tecnologia de dessalinização de água do mundo, são especialistas em irrigação, em agricultura de precisão, em reutilizar a água. Eles têm conflitos raciais e étnicos que estão intrinsecamente ligados desde a criação do território – e isso foi terra fértil para que as indústrias de segurança, espionagem, armas, alarmes e outros estejam entre as mais desenvolvidas do mundo. Eles têm o problema de ser um país muito jovem (o Estado de Israel é de 1948), por isso universidades, centro de pesquisas, empresas e investidores estão muito unidos, trabalham juntos, pois sabem que competem com outros países que tem uma trajetória consolidada. Foram os criadores do ICQ (que foi vendido por US$ 400 milhões em 1998, quase 20 anos atrás, quando nem existiam os conceitos de startups, investidor-anjo, aceleradora) e do popular Waze. É o país que mais investe em pesquisa e desenvolvimento no mundo (4,5% do PIB). Para quem quiser saber mais recomendo a leitura do “Nação empreendedora – o milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina” (Saul Singer e Dan Senor, editora Évora).

Em época de desemprego na casa dos dois dígitos muitos trabalhadores abrem seus próprios negócios, mas isso não quer dizer que vão se tornar empreendedores de fato. O que essas pessoas precisam fazer para se tornarem empreendedoras?
Precisam buscar se informar se possuem o perfil empreendedor e quais competências precisam desenvolver antes de decidir pelo próprio negócio. Empreender não é fácil. Exige muita persistência, dedicação, resiliência, criatividade, esforço, força de vontade. Quem decide mesmo abrir um negócio, tem um longo caminho, que inicia pela identificação de uma oportunidade, construção do modelo, validação da ideia, planejamento financeiro, tributário, fiscal, societário até o lançamento do negócio. Junto com a professora Márcia Matos desenvolvi uma metodologia que mostra esse caminho e que se chama Trilha de Referência para o Empreendedor – TREM e que está disponível gratuitamente.

Quais são os setores hoje no Brasil que mais empregam características empreendedoras?
O setor de tecnologia é um dos mais propícios, pois a inovação tecnológica sempre gera novas oportunidades de negócios (sejam novos, sejam para transformar os já existentes). Mas atualmente novos setores vem sendo impactados, talvez agora em 2016 e nos seguintes, os setores que apresentarão maiores oportunidades são o financeiro, o de saúde e o de automação (tanto residencial quanto empresarial).

Em época de crise, como o empreendedor deve gerenciar seus riscos?
Buscando se informar cada vez mais, não acreditando em qualquer um, identificando quais são os principais sinalizadores para seu negócio. E ser otimista sem criar dívidas baseadas só em desejo. A cabeça pode estar nas nuvens, imaginar soluções criativas, testar inovações – mas os pés devem ficar bem firmes no chão.

É notório que assim como um “boom” de crescimento chega ao fim, uma recessão também tem seu prazo de validade. Como saber o momento para voltar a investir? Época de crise é o melhor momento para surgir empreendedores?
Você deve investir quando identificar uma oportunidade: existe um público que deseja uma solução, que está disposto a pagar por ela e não encontra alternativas? Você tem tecnologia, processos e recursos para criar e entregar esse produto? Tem uma receita, sabe ou deseja descobrir uma nova maneira de entregar? É algo que você sabe, gosta ou quer fazer? Como já citamos, é a crise que vem fazendo serviços como o Uber e o Netflix ganhar mercado. Como ensina Nizan Guanaes: “enquanto uns choram outros vendem lenços”. Em alguns setores, “esperar a crise passar” pode significar perder a janela de oportunidade para lançar uma inovação.

Você é defensor de que no futuro o modelo de financiamento das PMEs virá de crowdfunding. Explique melhor.
Não diria que sou um defensor do modelo de financiamento via crowdfunding, apesar de achar essa alternativa muito bacana para muitos modelos de negócios. Acredito que o melhor dos cenários é quando o empreendedor consegue financiar com capital próprio seu próprio negócio. Começar pequeno e gerar receita para viabilizar o crescimento. Mas sem dúvida existem modelos de negócio que precisam de investimento externo. Há casos em que o melhor parceiro pode ser um investidor-anjo ou já mesmo um fundo de investimento (se for um negócio já maior), principalmente se além de dinheiro, ele trouxer conhecimento e networking. Em outros casos, o crowdfunding equity pode ser sim uma boa alternativa, principalmente quando o negócio é de nicho e há uma “causa” que seja capaz de entusiasmar muitos investidores.

Impostos e juros ainda são entraves para as PMEs? O que precisa ainda ser feito para que o governo estimule novos empreendedores?
Sim, a macroeconomia e a política de impostos e juros são fatores importantes para o desenvolvimento das micro e pequenas empresas. Junto com um grupo de parceiros, amigos e colegas do mercado (professores, empreendedores e lideranças empresariais), há dois anos criamos o “Brasil mais empreendedor”, movimento que culminou na redação de um documento em que apresentamos sugestões de como desburocratizar processos, ampliar a educação e a cultura empreendedora, disseminar a inovação, atrair capital e ter uma política econômica mais favorável ao empreendedorismo. Mas sempre é bom lembrar que mesmo com todas as dificuldades existem empresas que estão ganhando mercado, superando as dificuldades e gerando resultados. Essa é a ciência “não exata” do empreendedorismo, sempre há como você criar um modelo vencedor, que supere todas as dificuldades. A questão é que encontrar esse caminho é um grande desafio.

Fonte: “Estadão PME”, 29 de junho de 2016.

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