Na Alerj, voto da capital teve menos força

Quando o Palácio Tiradentes abrir suas portas para a próxima legislatura, terá, no plenário, uma Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) menos feminina, com expressiva presença de líderes evangélicos e bancadas regionais fortalecidas em relação às atuais. Nas cadeiras do Salão Nobre, serão 70 deputados estaduais (39 deles reeleitos) que, apesar de suas muitas diferenças ideológicas, guardam algumas características em comum: a maioria é branca (84%) e com nível superior completo (77%). Vinte e três deles declararam ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter bens acima de R$ 1 milhão. Quatro deles informaram patrimônio de mais de R$ 10 milhões: Jorge Picciani (PMDB), Domingos Brazão (PMDB), Milton Rangel (PSD) e Marcia Jeovani (PR).

Baixada Fluminense predomina

Os novos deputados vão compor representações temáticas, de opinião e distritais. Mais da metade dos parlamentares, por exemplo, foi eleita com votação predominantemente fora da capital. São 36, contra os 32 que estão na Alerj atualmente. Nesse cenário, a Baixada Fluminense terá o maior número de representantes, um total de 13, um a mais do que no período 2011-2014.

Entre os representantes da Baixada, está Farid Abrahão (PTB), ex-presidente da Beija-Flor de Nilópolis e irmão do bicheiro Anísio Abrahão David, patrono da escola de samba. Já Duque de Caxias ajudou a eleger os rivais Zito (PP), ex-prefeito da cidade, e Rosenverg Reis (PMDB), irmão do também ex-governante caxiense Washington Reis (PMDB). Estreiam na Assembleia Marcio Canella (PSL), vereador de Belford Roxo, e Renato Cozzolino (PR), primo de Núbia Cozzolino, ex-prefeita de Magé cassada em 2010.

O Leste Fluminense passa a ter nove deputados, frente aos sete atuais. Uma curiosidade vem de Maricá: com cerca de 143 mil habitantes, conseguiu eleger Zeidan (PT), mulher do prefeito, Washington Quaquá (PT), e o presidente da Câmara dos Vereadores, Fabiano Horta (PT). A cidade fez a mesma quantidade de deputados que São Gonçalo, de cerca de 1 milhão de habitantes e que contribuiu decisivamente para levar à Alerj José Luiz Nanci (PPS) e Nivaldo Mulin (PR), vereador e irmão do prefeito da cidade, Neilton Mulim (PR).

O Sul Fluminense terá cinco deputados, entre eles o estreante Dr. Julianelli (PSOL), de Resende. Do Norte e Noroeste do estado, serão três, como Jair Bitencourt (PR), ex-prefeito de Itaperuna. Mesmo número dos parlamentares eleitos basicamente com os votos da Serra, assim como da Região dos Lagos.

Mulheres de prefeitos entram

Se traçado o perfil da Alerj pelo sexo dos eleitos, apenas nove são mulheres, que perderam espaço em relação à legislatura vigente (são 12). Entre as novidades, estão Daniele Guerreiro (PMDB), casada com Gelsinho Guerreiro, prefeito de Mesquita, e Marcia Jeovani (PR), mulher de Miguel Jeovani, que administra Araruama.

A bancada temática mais numerosa continua sendo a evangélica. Serão 10 deputados (contra 11 atualmente), sem contar aqueles que declaram fé evangélica, mas com votos mais influenciados por outros fatores.
Várias denominações estarão representadas. Dois futuros parlamentares, por exemplo, são bispos da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd): Benedito Alves (PMDB) e Carlos Macedo (PRB). O primeiro, do partido do candidato ao governo Luiz Fernando Pezão. O segundo, da legenda de seu opositor, Marcelo Crivella. Já Filipe Soares (PR) é filho de R.R. Soares, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus. E Samuel Malafaia (PSD) é irmão de Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Diante desse quadro, o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, lembra que o estado do Rio é um dos com mais evangélicos no país. Ele vê como natural que boa parte da bancada manifeste esse tipo de fé. No entanto, vê problemas quando se mistura política com religião para pedir votos:

— Não se pode colocar todo mundo sob o mesmo rótulo, porque existem várias denominações e comportamentos políticos diferentes. Um candidato pode ser evangélico, mas isso não deve ser usado na campanha. Quando começa a misturar os dois temas que é algo não desejável — diz ele.

Ismael ressalta também a dificuldade de candidatos ligados a categorias profissionais ou a temas específicos se elegerem. Ainda assim, a nova Alerj manterá importantes bancadas pautadas por essas características. A da segurança pública e/ou defesa de temas militares, por exemplo, continua com seis deputados. A ex-chefe de Polícia Civil Martha Rocha (PSD), por exemplo, se junta a Zaqueu (PT), que já exerceu o mesmo cargo. Enquanto Marcos Abrahão (PTdoB), Paulo Ramos (PSOL) e Iranildo Campos são policiais militares.

Com atuação em áreas como a segurança e direitos humanos, Marcelo Freixo (PSOL) foi o mais votado para a Alerj. Ele integra uma bancada com eminente voto de opinião, ao lado de outros deputados, como Luiz Paulo (PSDB). A área da educação tem representantes como Comte (PPS). Christino Áureo (PSD) é a principal figura da área agrícola e pecuarista do estado. E, da saúde, se elegeram os médicos Dr. Deodalto (PTN), Dr Julianelli e José Luiz Nanci, além da Enfermeira Rejane (PC do B).

Só 10 pardos e um negro

Esta última, aliás, foi a única das eleitas que se declarou ao TSE da cor preta, enquanto outros 10 se consideraram pardos. Por faixa etária, Eliomar Coelho (PSOL) é o eleito mais velho, com 73 anos. O mais novo é Jorge Felippe Neto (PSD), com 22 anos. Ele é filho de Rodrigo Bethlem, que desistiu da candidatura para a Câmara após aparecer em gravações admitindo receber propinas, e neto do vereador Jorge Felippe (PMDB).

Fonte: O Globo

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