As boas notícias que a Oxfam não conta sobre a desigualdade

Nelson Rodrigues costumava reclamar do “idiota da objetividade”, o jornalista que ignorava a beleza e a grandiosidade dos fatos. Pois hoje temos um personagem ainda pior: o intelectual pessimista. Mais que retratar a realidade de modo objetivo, ele se esforça para nos convencer que o mundo é um lugar mais triste e injusto do que acreditamos.

A pobreza diminui mais nos últimos 50 anos que nos 500 anos anteriores, segundo a ONU. Pela primeira vez na história do mundo, menos de 10% da população vivem em extrema pobreza. Precisaríamos de um Camões para louvar essas conquistas; em vez disso temos a ONG britânica Oxfam e seus relatórios pessimistas sobre pobreza e desigualdade.

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No documento divulgado esta semana, o escritório da Oxfam no Brasil afirmou que “seis bilionários têm mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros mais pobres”. Se o leitor se entristeceu ao ler essa notícia, talvez aprecie estas cinco informações que não aparecem no relatório:

1) É difícil confiar em estatísticas da Oxfam. Elas se baseiam em tabelas do Credit Suisse que calculam o patrimônio pela fórmula “ativos menos passivos”. Por esse critério, quem tem mais patrimônio que dívidas entra na estatística no lado dos mais ricos. Um favelado dono de seu barraco se sai melhor que um morador do Jardins que paga financiamento de um apartamento de 200 m².

2) A Oxfam também se baseia em dados da revista “Forbes”, como o de que o patrimônio dos 31 bilionários brasileiros somava R$ 424 bilhões em 2016. Se cometêssemos a violência de confiscar toda a riqueza que essas pessoas herdaram ou levaram a vida inteira para construir, poderíamos financiar as despesas do governo federal por… quatro meses. Sim, o dinheiro acabaria em apenas quatro meses.

3) Às vezes, a desigualdade é causada por boas notícias. Um exemplo é a emancipação feminina. Nos EUA de 1960, as mulheres que trabalhavam eram em maioria pobres. Quando as ricas decidiram deixar a vida de donas de casa e entraram no mercado de trabalho, a renda das famílias ricas aumentou, mas a das pobres permaneceu a mesma. Essa é uma das causas para o coeficiente de Gini dos EUA ter subido de 0,34 em 1960 para 0,43 em 2005.

Do mesmo modo, há 40 anos a China tinha um Gini escandinavo, pois todos os chineses eram igualmente miseráveis. Com a abertura econômica, 500 milhões de chineses saíram da miséria, enquanto outros continuaram nela. A desigualdade subiu precisamente por causa da redução da pobreza.

4) Se a taxa de juros é alta demais, “o de cima sobe e o de baixo desce”. Rentistas faturam e quem está no vermelho vê a dívida aumentar. Para baixar os juros, o governo precisa convencer os credores de que é um bom pagador. Faz isso cortando despesas, segurando a inflação, obtendo superávit e criando leis para controlar a gastança. É estranho que a coordenadora da Oxfam no Brasil, Katia Maia, não entenda a importância da lei do teto de gastos, que ela considera um “largo passo atrás na garantia de direitos”.

Para sorte dos brasileiros, porém, a taxa de juros deve fechar este ano perto dos 7%, o menor nível da história.

5) Por causa da tecnologia e do surgimento dos mercados em que “o vencedor leva tudo”, a desigualdade deve continuar aumentando, mas sua relevância tende a diminuir. Décadas atrás, desigualdade significava ter ou não alimentos e uma geladeira em casa. Em 1937, por exemplo, a “Folha da Manhã” sorteou uma geladeira de 15 contos de réis (o anúncio está na página 8 deste link). Esse preço equivalia a mais de 60 vezes o valor salário-mínimo que seria criado em 1940.

De lá para cá, empresas podem ter concentrado renda, mas, ao tornar produtos mais acessíveis, diminuíram a relevância da desigualdade. Hoje mais de 93% dos brasileiros têm geladeira —não tão boa quanto a do Jorge Paulo Lemann, mas que conserva alimentos da mesma forma.

Espalhar notícias pessimistas sobre pobreza e desigualdade rende compartilhamentos e doações a ONGs e ativistas. Mas a verdade é que vivemos no mundo mais próspero e abundante de todos os tempos.

Fonte: “Folha de S. Paulo”, 27/09/2017.

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