As crises e a economia

O evento mais interessante das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial na semana passada não ocorreu nem no FMI, nem no Banco Mundial. A conferência com mais conteúdo aconteceu no Peterson Institute for International Economics, onde trabalho como pesquisadora-sênior. Tratou-se de discutir, durante um dia e meio, os problemas da macroeconomia e da política macroeconômica com alguns dos mais importantes acadêmicos e gestores de política econômica do mundo.

Desde a crise de 2008, alguns economistas têm se dedicado à difícil tarefa de entender por que a profissão falhou de modo tão espantoso. Mas não é a primeira vez que isso acontece. Grandes crises econômicas sempre suscitam reflexões e mudanças transformadoras nessa ciência tão inexata. A Grande Depressão dos anos 30, por exemplo, trouxe a chamada “Revolução Keynesiana”, a preocupação com os processos desestabilizadores e a atenção ao papel fundamental das políticas de estabilização da demanda. Perguntavam-se os economistas se choques aparentemente temporários poderiam afetar a economia de forma permanente quando intermediados pelo sistema financeiro – mecanismo de propagação e amplificação por excelência. A economia era vista como um sistema complexo, capaz de retroalimentar processos desestabilizadores, necessitando, portanto, da intervenção do governo para estancar sangrias.

Essa visão permaneceu mais ou menos intacta até o pós-guerra, quando começou a despontar a chamada “Revolução Neoclássica”, que enxergava no livre funcionamento de mercado – sem interferências indevidas do governo por meio da regulação – e na presumida racionalidade dos agentes econômicos as características fundamentais das economias então “modernas”. A visão de que a economia era na verdade um sistema capaz de se autorregular e autoestabilizar ganhou força após a segunda grande crise global, a estagflação dos anos 70 causada pelos choques do petróleo e por respostas equivocadas de política econômica.

A experiência após a Grande Estagflação, com a moderação inflacionária e o crescimento sustentado – o período que ficou conhecido como a Grande Moderação – levou os economistas a formarem visão mais benigna sobre as flutuações econômicas e sobre os mecanismos de autoestabilização da economia. Regras simples para a política econômica passaram a dominar o debate, assim como os modelos sofisticados com agentes racionais e mercados razoavelmente eficientes. O problema é que os modelos de ponta usados por parte relevante da profissão foram incapazes de dar conta da crise de 2008.

Desde a Grande Recessão associada à crise financeira de 2008, economistas vêm tentando buscar novas formas de abordar a macroeconomia e a política econômica. A crise derrubou, tal qual ocorrera nos anos 30, a ideia de que a economia é um sistema que se autoestabiliza, que está sempre caminhando para um equilíbrio mais ou menos previsível desde que a política econômica não atrapalhe. Predomina, hoje, a ideia de que além de complexo, o binômio economia-sistema financeiro possui não- linearidades difíceis de incorporar nos modelos sofisticados, porém lineares, utilizados pela profissão.

Busca-se uma nova forma de pensar a macroeconomia, levando em consideração o fato de serem os agentes econômicos – firmas, consumidores, governo – entidades e indivíduos marcados pela racionalidade limitada, ou pela irracionalidade previsível na tomada de decisões, tal qual revelou a pesquisa do vencedor do Nobel de Economia desse ano, Richard Thaler. Entre acadêmicos e praticantes, há um profundo questionamento sobre tudo o que havíamos nos acostumado a chamar de “ortodoxia”.

Infelizmente, essas reflexões ainda não chegaram ao debate público brasileiro. Das poucas vezes em que alguém tentou trazer para a discussão nacional algo do que se conversa fora do Brasil – os artigos e o livro de André Lara Resende sobre juros e moeda, por exemplo – argumentos foram sacrificados no altar da polarização e da ideologia.

Para os interessados, o debate global passa por momento especialmente rico e fascinante. É desalentador que ele continue tão distante do Brasil.

Fonte: “O Estado de S. Paulo”, 18/10/2017.

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