Sábado, 3 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Campanha eleitoral sob a lei do crime na Baixada Fluminense

Estreante na política, Alex do Gás tinha dois trunfos como candidato a vereador em Belford Roxo, cidade da Baixada Fluminense. Confiava na força de seu partido, o PMDB, e em uma enxurrada de votos dos moradores da favela Parque Esperança. Com a indispensável permissão dos traficantes locais, Alex Martins da Silva tem o monopólio do comércio de gás na favela. Na madrugada de domingo, 28 de agosto, depois de uma noitada de pagode, Alex, a mulher e o cabo eleitoral Alan Moreira foram rendidos por seis bandidos enquanto seguiam em frente ao depósito de gás. “Que abordagem é essa? Sou conhecido da comunidade”, disse Alex, inconformado com o tratamento. A uns 100 metros, no alto da favela, um dos homens sentenciou: “Vamos executar todo mundo”.

Em um ano em que candidatos reclamam da falta de dinheiro, devido às restrições da nova lei eleitoral, os concorrentes a prefeito e vereador que disputam votos na Baixada Fluminense, região colada ao Rio de Janeiro, enfrentam um problema bem pior: a falta de segurança. Desde a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos morros do Rio, a partir de 2010, os traficantes migraram para a Baixada e encontraram-se com as milícias. A região ficou ainda mais sangrenta. Em julho, 106 das 368 pessoas assassinadas no estado do Rio – ou 29% – foram mortas na Baixada.

Traficantes e milicianos se envolvem em vários aspectos da vida dos 2,8 milhões de eleitores da região de ruas fétidas e esburacadas. Não poderiam ficar de fora da política. Nos últimos nove meses, além de Alan, outras 13 pessoas que participavam da eleição foram assassinadas. A polícia concluiu, por enquanto, que dois desses casos ocorreram diretamente por disputa política. Os outros assassinatos são resultado de interesses conflitantes da bandidagem, que esbarram na política.
Diversificação das atividades dos milicianos

No caso mais conhecido, quatro pessoas envolvidas em campanhas eleitorais foram assassinadas. Ao investigar um caso de disputa política, a polícia deparou com um esquema de furto de combustível a partir de um oleoduto que corta a região até a refinaria de Duque de Caxias, cidade mais populosa da Baixada. Furto de combustível, para azar deles, é justamente o negócio favorito de muitos milicianos. As milícias compram os terrenos onde passam os dutos, levantam muros e cavam até perfurar os dutos e instalar bicas, de onde o combustível é retirado. Trata-se de uma diversificação das atividades dos milicianos, mais conhecidos por exigir “taxas de proteção” e cobrar por uma gama de serviços clandestinos – do sinal de TV a cabo ao fornecimento de gás de cozinha.

Alex do Gás nunca afrontou o tráfico em sua área. “Eles ficavam para lá e eu no meu canto”, afirma. Seu erro foi despertar suspeita de estar associado às milícias. O caso ainda está sob investigação. No sábado (17), Alex voltou à favela para mostrar que estava vivo e na disputa eleitoral. “Surgiu o boato de que me esquartejaram”, diz. Alex circulou na comunidade acompanhado de três seguranças. Gastou R$ 450, um valor expressivo para uma campanha que ainda nem teve arrecadação. Pela lei, pessoas físicas só podem contribuir com até 10% de seu rendimento bruto no ano anterior. Numa cidade como Belford Roxo, com 60% da população na pobreza, encontrar gente disposta a doar é tão difícil quanto escapar da violência. Sem dinheiro, os candidatos da Baixada precisam caminhar, falar com as pessoas nas ruas e pedir votos em favelas. Mas isso também custa.  Milicianos e traficantes perceberam a demanda e passaram a dificultar o acesso às áreas que dominam. Quem quiser entrar precisa pagar pedágio.

Campanhas paradas pela violência

No final da tarde da quarta-feira (21), o deputado estadual Deodalto Ferreira, candidato do Democratas a prefeito de Belford Roxo, chegou ao bairro de Santa Maria numa caminhonete Ford Ranger preta com um grupo de homens. Não eram apenas cabos eleitorais. Apesar das bandeiras, sob a roupa era possível ver o volume das armas. Durante a caminhada, Deodalto permaneceu cercado por cinco guarda-costas. “Nunca usei carro blindado  nem andava com seguranças. Agora tenho receio”, afirma. “Estou com medo, não quero virar estatística.” Deodalto conta que, em junho passado, recebeu um telefonema anônimo feito de um orelhão. “Ou você para a campanha ou sua família sofrerá as consequências”, disse um homem. Ele não registrou queixa na polícia, tampouco pediu segurança à Assembleia Legislativa.

Deodalto está pagando para ser candidato. Sua prestação de contas registra uma receita de R$ 61.700 em doações, mas ele já gastou R$ 189.600 em serviços. No vermelho, ostenta uma boa (e segura) estrutura de campanha. Havia mais cabos eleitorais do que moradores durante a passagem de sua comitiva por um trecho de Belford Roxo, onde as ruas de asfalto têm crateras cheias de lama e as calçadas foram tomadas pelo mato e pelo lixo. Sempre acompanhado dos seguranças, Deodalto entrou numa ruazinha lateral. Abraçou uma senhora de chinelo de dedo sentada em frente à loja de roupas, expostas em cordões e nos manequins. Uma grande placa anunciava: “Não vendo fiado, não faço troca”. A lojista deu pouca atenção a Deodalto.

A 40 quilômetros dali, Zaqueu Teixeira, candidato do PDT a prefeito de Queimados, cidade vizinha a Belford Roxo, já terminara a caminhada do dia. “Nossa militância não pode entrar em comunidades. Os bandidos montaram até barreiras nas ruas, com pedaços de pau e concreto, para controlar a passagem de pessoas”, afirma Zaqueu, também deputado estadual e ex-chefe da Polícia Civil do estado. Horas antes, Zaqueu percorrera um bairro da periferia. A passos ligeiros, subira uma ladeira de onde se avistavam prédios construídos pelo programa Minha Casa Minha Vida. Zaqueu apontou o dedo para o condomínio: “Para eu ir lá, preciso de uma operação policial porque o tráfico ocupou a área”. Ele diz que não vale a pena se arriscar, pois pelo menos duas vezes seus cabos eleitorais foram escorraçados por um grupo de bandidos armados com fuzis. Diante da dificuldade, Zaqueu pediu socorro à Secretaria de Segurança e foi atendido por operações da polícia nos locais. Mas ele enumera de cabeça seis áreas ainda totalmente dominadas pelos bandidos, onde não consegue entrar.

Durante a caminhada, um homem seguia os passos de Zaqueu com persistência. Vestido todo de preto, com bota e óculos escuros, o guarda-costas tentava se passar por cabo eleitoral. Agitava uma bandeira, tinha no peito um adesivo com o nome do candidato, batia palmas. Outros dois cabos eleitorais que acompanhavam o movimento tampouco enganavam. Zaqueu diz que os homens são colegas de polícia que resolveram ajudá-lo e arriscam a vida de graça. Apesar do transtorno, Zaqueu deu um jeito de usar a insegurança a seu favor na hora de pedir votos. Diz que, se eleito, a prefeitura reagirá à violência. Como ex-chefe de polícia, ele sabe que essa é uma promessa difícil de cumprir.

Fonte: “Época”, 27/09/2016.

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