Brasil, nação classe C

Guilherme Fiuza

Dilma Rousseff declarou que “queremos um país de classe média”. É a primeira governante a anunciar como deve ser a pirâmide social. Desde o lema da ditadura do proletariado não se ouvia algo parecido. Aparentemente, a doutrina Dilma substituiu a dialética pela aritmética: para resgatar os muito pobres é preciso acabar com os muito ricos. Um Eike Batista será transformado em alguns milhões de emergentes da classe C. Talvez eles formem uma cooperativa para cuidar das jazidas de Eike. Ou então acabarão de uma vez com esse negócio de explorar ouro e petróleo, que são coisas de rico.

Já estava mesmo na hora de eliminar a elite da vida brasileira. E não só pelo aspecto econômico. Foi profundamente incômodo ao país ser presidido por um intelectual cultivado, cheio de títulos acadêmicos. Dentre outros comportamentos elitistas, esse presidente acabou com o compadrio na área econômica do governo, impondo a virtude como critério. Ou seja: um desumano, insensível aos apelos de um amigo, parente, afilhado ou cabo eleitoral.

Nesse período, a economia brasileira saiu das trevas, mas o país só ficou à vontade quando foi entregue a um ex-peão. A nação ficou aliviada sob um presidente que empregava os companheiros, que não se importava em maltratar a língua, que se orgulhava de não ler jornais, que fazia o elogio da ignorância – ufanando-se da sua própria falta de estudos, ao cantar vitória sobre o antecessor diplomado. O símbolo máximo dessa cultura (sic) foi a distribuição pelo MEC de livros ensinando uma espécie de português não contabilizado (“nós pega o peixe” era uma das novidades do idioma).

Esse presidente ficou conhecido como “o filho do Brasil”, por ser gente como a gente. Você perguntaria: “”A gente” quem, cara-pálida?”. Evidentemente, uma pergunta elitista. Cheque seu passaporte, porque você talvez não caiba no Brasil de classe média.

Fora um certo sotaque fascista, até que a ideia do nivelamento geral de um povo poderia ter seus encantos. Nessa grande nação classe C, não existiria mais, por exemplo, o golpe do baú. As moças interesseiras teriam de mudar de ramo, porque não valeria mais a pena cavar um casamento para continuar na mesma classe social. (Esclarecendo que o mesmo raciocínio vale para os rapazes interesseiros. No império da igualdade, é mais prudente tirar a média de tudo, até dos sexos.)

Nessa doce sociedade mediana, as ambições também terão de estar niveladas, para garantir que todos sejam iguais perante suas contas bancárias (ou mais ou menos iguais, vá lá). Isso acabará com um dos grandes problemas do capitalismo, que é a exploração do homem pelo homem. Estando quase todo mundo na classe C, a mais-valia sairá de moda. E, não havendo mais nenhuma outra classe relevante, essa imensa e única classe média poderá, por que não, ser rebatizada de classe A – num grande final feliz que nem Aguinaldo Silva imaginaria, muito menos Karl Marx.

A erradicação da elite, a partir do postulado de Dilma Rousseff, traria benefícios imediatos ao funcionamento do país. Ministros como Fernando Pimentel e Mário Negromonte poderiam sair de seus esconderijos e voltar ao trabalho, sem a imprensa burguesa e elitista para fuxicar seus negócios no governo popular. Pelo mesmo motivo, a presidente não precisaria gastar todo o seu primeiro ano de governo tentando segurar ministros que caíam de podres. Sobraria-lhe mais tempo para trabalhar nas fundações do seu Brasil médio. E que país seria este?

Seria um país muito mais tolerante. Além das liberalidades no uso da língua portuguesa e do dinheiro público, a mentalidade média que emerge da sociologia governamental muda inteiramente o conceito de responsabilidade. Por exemplo: o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, teve a carteira de habilitação apreendida por dirigir em excesso de velocidade e falando ao celular. De cara limpa, tranquilo, apareceu no Detran confirmando seus delitos e anunciando que “retomará os parâmetros de civilidade”.

Já o hábito da ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, era estacionar em local proibido. Ela também apareceu sorridente, prometendo que não vai mais fazer isso não.

Tudo normal. Tudo médio. Inclusive os parâmetros de civilidade e humanidade.

Fonte: Época, 23/01/2012

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6 comments

  1. André Luiz D. Queiroz

    Não gostei. O autor fez várias ironias sobre a meta de Dilma de que a sociedade brasileira seja prioritariamente de classe média, mesclado mais uma vez a críticas a Lula, que projeta eternamente a imagem de homem do povo em oposição a FHC como representante da elites. Mas o faz naquele mesmo ranço de mesquinharias, a meu ver sem lançar luz adequadamente sob as questões realmente importantes para uma política de desenvolvimento econômico/social do país ao longo do atual governo. Podia ser melhor.

  2. t tonucci

    Meu prezado Guilherme; não foi desnecessário o?: ” presidente que acabou com o compadrio na área econômica do governo,impondo a virtude com critério”. Menos menino, menos…

  3. Eduardo

    Se o prezado comentarista acima puder dar um exemplo de compadrio na área econômica durante o governo Fernando Henrique, será bastante importante.

  4. Fernando Araujo

    Sensacional.Parabens pelo texto.Um dos melhores que ja li no site do Imil

  5. t tonucci

    Num encontro em sampa alguém me perguntou se eu já tinha lido Thoureau Achei bacana a inquirição dado que por lá só me falam de Chitãozinho e Xororó. Já ia me manifestar quando uma minhoquinha de desconfiança me deteve.Não se tratava do meu Thoureau, era um tal Scott,que eu nunca tinha ouvido falar.O cara tampouco,sabia do filósofo.Ai eu pergunto Guilherme: a elite brasileira está mais para Turow ou para Thoureau?

  6. João B Santos

    Parabéns! Excelente artigo. Com muito sarcasmo e tantas verdades. Continue assim, ironizando os feitos desses “políticos” que têm ideias de jericos.