Insisto num ponto mencionado neste espaço em oportunidades anteriores: as crises levantadas pela revelação dos casos de corrupção acontecem dentro do governo, mas não são contra o governo.

Portanto, caso leve adiante o propósito de agir contra quem põe a mão em dinheiro público, a presidente Dilma Rousseff fará um bem enorme ao país. Dinheiro público, muita gente se esquece, não brota em árvores.

Ele pertence, no caso do Brasil, a uma população que arca com uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo – e que não tem a contrapartida do bom serviço prestado.

Assim como aconteceu nos Transportes, as ações mais recentes na pasta do Turismo foram bem recebidas pelos cidadãos que – ninguém tem dúvidas – andam fartos da máxima do “rouba mas faz”. Sobretudo porque, pelo que se vê, a tendência tem sido a de se fazer cada vez menos e se roubar cada vez mais.

É evidente que, na linha do que disse ontem a própria Dilma Rousseff, durante a posse de Roberto Gurgel na Procuradoria Geral da República, as ações da Polícia Federal devem se manter dentro dos limites da lei.

Mas a lei, como bem observou o diretor adjunto Costábile Nicoletta em artigo publicado ontem neste espaço, não reserva privilégios desta natureza a quem ocupa cargos no governo. Um dos lados da questão é poupar acusados que não tenham culpa estabelecida do constrangimento de ser exibidos ao público na condição de criminosos. Isso deve ser perseguido a qualquer custo.

Outra, bem diferente, é usar o cargo dos acusados como desculpa para a falta de ação – sobretudo porque, como é óbvio, ninguém pega dinheiro público sem a ajuda de um funcionário bem colocado na hierarquia da repartição.

A corrupção não nasceu no governo Dilma. Muito menos no de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. Ela esteve presente com maior ou menor força em praticamente todos os governos que o país teve ao longo dos anos – embora seu combate nunca tenha sido uma prioridade.

Saber que se trata de um hábito antigo, porém, não deve servir de desculpa para não puni-lo. É muito comum que, diante de auxiliares próximos flagrados com a mão na cumbuca do erário, governantes digam que o erro não é diferente do que ocorreu em administrações anteriores.

É a saída fácil, que serve mais para encobrir o malfeito do que para sanar o problema. Ao agirem assim, os governantes praticamente sinalizam que o crime prosseguirá e que não há nada a fazer a respeito disso.

Ao dizer que não vai tolerar a corrupção em lugar de procurar colocar uma pedra sobre os erros de seus auxiliares, Dilma faz diferente. É pouco provável que ela consiga dar o fim a uma praga tão enraizada quanto a corrupção.

É muito provável que, ao perseguir corruptos, enfrente no Congresso dificuldades superiores às previstas pelos analistas que afirmavam, poucos meses atrás, que ela governaria com a mais folgada maioria já vista na história da democracia brasileira.

Mas, seja como for, só a intenção de agir com firmeza contra os que surrupiam o dinheiro significa uma tentativa de buscar um futuro diferente. Isso é positivo. Muito positivo.

Fonte: Brasil Econômico, 16/08/2011

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